Spoiler! E?

Spoiler! E?

Em crianças, ouvíamos vezes sem conta a mesma história. Já sabíamos o fim, mas mesmo assim, queríamos ouvi-la novamente. Ficávamos ansiosos, à espera daquela cena que já sabíamos que ia acontecer.

A minha mãe contava-me, e ainda me conta, muitas histórias de filmes e de livros. Lembro-me de uma de Hitchcock, que acaba com os polícias a comerem a arma do crime: uma perna de borrego assada! Mais tarde, vi este filme na televisão, e senti um imenso gozo ao ver desenrolar-se esta história e ir reconhecendo o enredo.

Lembro-me de ler Os Maias na escola. Logo no início, lemos a descrição do Ramalhete:

Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica (…)”

 A professora de Português explicou-nos que esta descrição da casa e da sua atmosfera pesada, triste, nos dava, logo no início, os indícios para a tragédia que iria ocorrer. Eça a dar-nos spoiler? 

A questão é: como poderíamos reconhecer estes indícios, e esta intenção do autor, se não nos fosse dito que no fim se dá uma tragédia? A intenção literária de Eça de Queirós, ao descrever assim o Ramalhete logo no início da obra, terá sido a de preparar o leitor? 

Não me importo com spoilers – nem de os receber, e muito menos de os dar. Que me desculpem os leitores.

O termo spoiler tornou-se muito frequente no universo dos conteúdos sobre livros, e também sobre filmes e séries – no fundo, sobre todos os meios de transmissão de uma narrativa. Hoje em dia, não podemos revelar o fim de uma história sem antes avisar – sem dar o tal spoiler alert. É assim porque há a crença de que saber o desfecho de uma história estraga o prazer da leitura. Mas será sempre assim?

O prazer da leitura encontra-se tanto no enredo como na linguagem. E quanto melhor for a escrita, maior o prazer que retiramos da leitura por via da linguagem. Em muitos casos, o enredo nem sequer é extraordinário, mas a escrita é tão boa que a leitura é uma sucessão de momentos de maravilhamento. Donde, o prazer da leitura fica prejudicado sobretudo naqueles livros que vivem sobretudo do enredo, e não da linguagem.

E quando lemos um livro pela segunda vez? Sabemos já o final, e ainda assim, queremos reler porque queremos voltar àquele universo, àqueles personagens, àquela linguagem. Qual spoiler?

Há ainda o caso dos clássicos: quem não sabe como acaba Romeu e Julieta? Ou Madame Bovary? Ou Orgulho e Preconceito? Os Maias, já agora? E ainda assim, lemos – e relemos – esses livros.

Saber o que vai passar-se na história dá um pouco uma sensação de domínio da narrativa. Eu não me importo. Até gosto.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2023)

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