Ler por aí… em Santiago, Cabo Verde: Siríaco e Mister Charles, de Joaquim Arena

Ler por aí… em Santiago, Cabo Verde: Siríaco e Mister Charles, de Joaquim Arena
Ler por aí... em Santiago, Cabo Verde: Siríaco e Mr. Charles, de Joaquim Arena

A noite vai morna, suave. O velho negro de pele malhada sabe, porém, que ela não lhe será breve nem calma. Nenhuma das conversas ou risadas que ecoam em volta, nessa taverna da vila da Praia de Santa Maria da Esperança, é suficientemente forte para lhe suavizar a dor que o tortura. Tem vindo a atacá-lo nos últimos tempos, na forma de um desequilíbrio e embrutecimento. Desses que desestabilizam humores e sentidos, e tornam qualquer pessoa indiferente ao que se passa em volta. No seu caso, aos que atravessam a praça, entram na taverna, eclipsando o que ainda resta do entardecer; ou àqueles que apenas lhe dirigem um olhar desinteressado. A sua perda é irreparável.”

Este é Siríaco. E esta é a sua história, que se multiplica em temas de interesse que se entrecruzam, e que nos levam a mergulhar em pesquisas sem fim – por isso, e também por trazer uma personagem histórica à sua dimensão humana, Siríaco e Mister Charles é tão fascinante. Vejamos então (ainda antes de entrar nas geografias):

– As duas figuras centrais, Siríaco e Charles Darwin, são ambas personagens históricas que coincidiram na ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde.

– Siríaco terá passado por Cabo Verde quando acompanhou a corte na sua fuga para o Brasil, na sequência das invasões francesas. Terá ficado? Só sabemos o que nos diz a ficção.

– Charles Darwin escreve sobre a sua passagem por Cabo Verde nos seus diários – será que menciona o encontro com Siríaco? Se este encontro se deu realmente, as características físicas de Siríaco (hoje sabemos que ele tinha vitiligo) terão seguramente interessado muito o jovem naturalista Charles Darwin. Outros que o viram e conheceram, terão acreditado que aquela pele malhada tinha poderes mágicos e malignos. Como, de resto, tudo o que fosse diferente.

– É certo que o último capítulo do livro refere uma carta de Siríaco a Charles Darwin – mas como este capítulo faz parte da narrativa (ficcional), permanece o mistério – será que esta carta existiu ou terá sido também ela ficcionada? É sabido que, apesar da sua condição, Siríaco era um homem instruído.

– Siríaco está retratado no quadro de José Conrado Roza, La Mascarade Nuptiale (1788). Neste quadro, estão retratados outros personagens que, pelas suas características físicas (seis anões e um índio da Amazónia), compunham com Siríaco a “família exótica” exibida na corte de D. Maria I. Este é o registo que conhecemos da existência de Siríaco.

– Sobre ter sido Siríaco ofertado pelo governador da Bahia à rainha D. Maria I, “em forma de prenda – mercadoria preciosa, – expedida para o príncipe D. Jozé”, haverá registos históricos? Ou será também parte da ficção este episódio? Como dizia Giordano Bruno, “se non è vero, è ben trovato!”

– A Revolta dos Engenhos ocorreu em Santiago em 1822, e marca o início do processo de luta pela libertação do povo cabo-verdeano do domínio colonial. Não é por acaso que aqui aparece esta história, paralela à história. Tudo o que é aqui contado debate o colonialismo.

– Foram efectivamente transportados no Beagle três índios fueguinos, para serem devolvidos à sua terra. Um deles ficará conhecido por Jemmy Button, encarregue de missionar o seu povo, e com um final trágico.

– A referência aos vinte e dois cronómetros que equiparam o Beagle nesta expedição recordou-me o que tinha aprendido numa conversa recente: foi só com a introdução dos cronómetros de precisão, desenvolvidos nos séculos XVIII e XIX pelo relojoeiro inglês John Harrisson, que foi possível calcular com exactidão a longitude da posição de um navio, o que veio reduzir os perigos das viagens marítimas de circum-navegação e possibilitar, não só o desenvolvimento do comércio mundial, como também as expedições de carácter científico, como foi a de Charles Darwin.

Sem ser exaustiva, esta lista de tópicos vai de certeza estimular a curiosidade dos leitores e o interesse por este livro – como já fez comigo. Sobre geografias, temos:

– O Brasil: o Engenho da Princesa da Mata, onde Siríaco nasceu – bem antes da abolição da escravatura no Brasil – ficava na Capitania da Bahia de Todos os Santos, no território onde é agora o estado do Sergipe, no Nordeste.

– Lisboa: visitamos a corte da rainha D. Maria I, no Real Paço de Belém, onde Siríaco viveu, foi educado e exibido como aberração sempre que a rainha pretendia evidenciar o seu estatuto e a sua riqueza; acompanhamos a nossa personagem em várias zonas da cidade que eram frequentadas pela população africana, como o Cais do Sodré, o Rossio, o bairro da Graça e a praça de touros do Salitre; e assistimos a toda a triste cena da fuga da corte para o Brasil. 

– A Inglaterra, nas recordações de Charles Darwin: The Mount, a casa onde nasceu, situa-se em Shrewsbury, no Condado de Shropshire, nas Midlands ocidentais; a cidade e a Universidade de Edimburgo, onde estudou medicina; a excursão ao País de Gales, acompanhando o seu mestre, o professor Adam Sedgwick, no estudo da geologia e dos fósseis.

– E sobretudo a ilha de Santiago, em Cabo Verde: a Cidade da Praia e a Cidade Velha (Ribeira Grande), assim como o interior, que foi palco da Revolta dos Engenhos: Achada, Ribeira dos Engenhos, São Domingos, Monte Facho; em Trindade havia um baobá – será que ainda lá está, anotado por toda a gente que por ele passou?

Quando estive em Cabo Verde neste Verão, estava a ler este livro – é isto que é Ler por aí… – e reconheci a paisagem árida, o ar quente a lembrar a proximidade do continente africano, ao mesmo tempo que estamos no meio do oceano:

O vento seco da estiagem traz consigo a indiferença do oceano e os murmúrios ancestrais da costa de África.”

O aspecto da ilha não podia ser mais desolador. Mas era tudo o que restava de fogos vulcânicos, revolução da matéria, explosões colossais. A tudo isto se juntava a atmosfera baça das manhãs mergulhadas no pó di terra.”

Temos aqui uma narrativa rica, que une vários pontos destas cronologias que se cruzam em diferentes geografias. Um prato cheio!

O ser humano não nasce de um único acto. Vai nascendo, várias vezes, ao longo da vida.”

Joaquim Arena

Foto de Joaquim Arena retirada do seu blog, Mar di Kepóna

Joaquim Arena nasceu em 1964, na ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aos seis anos veio viver para Lisboa. Viajou pela Europa e formou-se em Direito, em Lisboa, regressando depois a Cabo Verde, como advogado, músico e jornalista. Fundou no Mindelo o jornal “O Cidadão”, foi conselheiro cultural e de comunicação do Presidente da República de Cabo Verde Jorge Carlos Fonseca e assessor cultural da Alliance Française no Mindelo, São Vicente. 

A Verdade de Chindo Luz (2006) foi o seu primeiro romance, depois de publicar a novela Um Farol no Deserto (2000). Segue-se Para Onde Voam as Tartarugas (2010) e Debaixo da Nossa Pele (2017), um ensaio-reportagem sobre os seus antepassados, escravos e trabalhadores livres nos campos de arroz do Vale do Sado, foi distinguido com a menção honrosa do Prémio Imprensa Nacional/Vasco Graça Moura. Siríaco e Mister Charles (2022) está nomeado para o Prémio Oceanos de 2023. Já em 2023, Joaquim Arena publicou O Sabor da Água da Chuva e Outras Memórias da Amiga Perfeita, que venceu o Prémio Imprensa Nacional/Arnaldo França.

A ilha de Santiago

Foto do Plateau na Cidade da Praia retirada do jornal online A Semana

Lia Siríaco e Mister Charles quando estive na Praia este Verão: a verdadeira experiência Ler por aí…

As escassas horas que lá passei, porém, não foram suficientes para um reconhecimento dos locais por onde passa esta história. Ainda assim, passeei-me pelo Plateau, que é exactamente isso, um planalto para onde foi transferida a capital do arquipélago no século XVIII.

A anterior localização da capital, Ribeira Grande, depois chamada Cidade Velha, estava muito mais à mercê dos ataques de piratas, além de sofrer com a insalubridade da dita ribeira. Hoje a Cidade Velha é classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade e é uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.

Mas voltando à Praia, na época chamava-se Vila da Praia de Santa Maria da Esperança. No Plateau, as ruas são organizadas em quadrícula, e tinha muita curiosidade em saber se o desenvolvimento da cidade terá tido alguma influência pombalina – a época coincide…

Avenidas largas, uma praça central, edifícios cheios de charme, um promontório sobre o Oceano Atlântico. Em baixo, a Praia Negra, onde terá acostado o HMS Beagle.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2023)

Joaquim Arena no Passagens:

Se não assistiu em directo, pode ver aqui a minha conversa com Joaquim Arena no programa Passagens, na Rádio Movimento:

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