Ler por aí… em Nápoles, Itália: O Amante do Vulcão, de Susan Sontag

Ler por aí… em Nápoles, Itália: O Amante do Vulcão, de Susan Sontag

Entrada da Feira da Ladra. Não se paga. Entrada grátis. Multidão dispersa. Abelhuda, buliçosa. Entrar para quê? Que esperas ver? Só para ver. Quero ver o que há no mundo. O que resta. O que deitaram fora. O que deixou de se apreciar. O que teve de se sacrificar. O que se pensou que pudesse interessar a alguém. Mas são só bujigangas. Se estão ali, aqui, é porque já houve uma escolha. Mas pode ser que haja alguma coisa valiosa, lá. Não é bem valiosa. Mas alguma coisa que eu queira. Que queira salvar. Alguma coisa que me fale. Aos meus anseios. Fale a, fale de. Ah…”

Assim começa “O Amante do Vulcão, de Susan Sontag.

Caso não saiba que fazer com os olhos ávidos, tem sempre ao seu dispor esse outro, sempre próximo, interior : um livro.”

Esta é a proposta de Susan Sontag logo desde o prólogo de “O Amante do Vulcão”. A autora leva-nos até Nápoles, uma pacata cidade a caminho do Sul de Itália, encostada nas sombras do Monte Vesúvio. Mas mais do que oferecer-nos uma viagem turística, Susan Sontag leva-nos a viajar no tempo até aos finais do século XVIII, na companhia de Sir William Hamilton, embaixador inglês para o Reino das Duas Sicílias, então ainda uma posse do reino Bourbon de Espanha, e também conhecido entre os seus pares ingleses com o nome de Il Cavaliere.

A autora leva-nos aos ambientes da corte das Duas Sicílias, ao acompanhar Il Cavaliere, um nobre que era não só um coleccionador, mas também um estudioso obsessivo do vulcão junto a Nápoles e que graças a isso ganhara um estatuto de reconhecimento junto dos pares britânicos:

Alguns estudiosos da Royal Society tinham-no felicitado pela audácia das suas proezas de observação de perto do monstro em plena erupção. Assistira a algumas vendas de quadros e fizera algumas compras, judiciosamente. E o Museu Britânico comprara os seus vasos etruscos, o lote completo, assim como algumas pinturas menos importantes, os colares e brincos de Herculano e Pompeia, alguns dardos e capacetes de bronze, dados de âmbar e de marfim, estatuetas e amuletos (…)”

Mas todo este ambiente idílico de coleccionador, embaixador e frequentador assíduo da corte real, está ameaçado por dois lados: a erupção iminente do Vesúvio e a revolta que lançará o caos na região e culminará com a proclamação da República e o afastamento definitivo dos Bourbon.

O embaixador britânico ganha uma nova dimensão com a morte da sua primeira esposa Catherine e o seu casamento com a excêntrica e social Emma Lyon, que ganhará o estatuto e a posição de nova Lady Hamilton. Mas também ela, fascinada por toda a situação em torno de Il Cavaliere, faz com que o seu interesse amoroso se volte para uma nova personagem, esta bem conhecida da história: o almirante Horatio Nelson.

A narrativa envolve-se entre o cada vez maior interesse de Lord William Hamilton pelo vulcão e pelo desinteresse da sua jovem esposa, no cenário que caminha para a revolução que se prepara em Nápoles em finais do século XVIII. Acompanhar as personagens de Sontag é não só dar um mergulho na História, mas também ao psicológico de cada uma delas e à forma como cada um enfrenta as situações que os rodeiam.

Desde o papel de coleccionador de arte ao de ladrão de obras de arte, do anonimato à corte, do papel secundário de bailarina ao de Lady, são muitos os percursos de cada personagem. E sempre à sombra do Vesúvio, figura omnipresente e responsável pela modelagem da sociedade à beira da extinção.

 

Susan Sontag

Susan Sontag, fot retirada do perfil @higherentity no Tumblr
Susan Sontag, foto retirada do perfil @higherentity no Tumblr

(Nova Iorque, 16 de Janeiro de 1933 – 28 de Dezembro de 2004)

Escritora, ensaísta, cineasta, filósofa, professora, crítica de arte e ativista.
Os seus ensaios suscitaram inúmeras polémicas, bem como as suas intervenções contra a Guerra do Vietname e o Cerco de Sarajevo. Foi uma forte crítica da intervenção americana no Iraque, tendo publicado um dos seus últimos textos a respeito do assunto em Maio de 2004 no New York Times.
Recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras em 2003. Entre as suas obras de ficção, este “O Amante do Vulcão” foi o que alcançou o maior êxito popular, tendo-se transformado num Best-seller. Entre os seus romances, encontram-se ainda “O Benfeitor” e “Na América”. No ensaio, destacam-se “Contra a Interpretação”, “Sobre a Fotografia” e “A Doença como Metáfora”.

Ativista pelos Direitos Humanos, ficou reconhecida como “uma das críticas mais influentes da sua geração”

 

Nápoles

Monte Vesúvio, Foto de Ross Elliott no Flickr
Monte Vesúvio, foto de Ross Elliott no Flickr

Cidade da região da Campânia, Nápoles é a terceira cidade mais populosa de Itália após Roma e Milão. O seu centro histórico é Património Mundial pela UNESCO.

O seu golfo, em pleno mar Tirreno, faz com que a cidade seja um importante porto comercial e o principal centro industrial e comercial do Sul. É um centro turístico de excelência, pela proximidade do Monte Vesúvio (um vulcão ainda em atividade), e também das ruínas das cidades históricas de Herculano e Pompeia, sepultadas numa grande erupção do vulcão em 79 DC. As ruínas das duas cidades foram acidentalmente descobertas em finais do século XVIII (época retratada em “O Amante do Vulcão”.)

É o fim do dia. O Cavaliere encontra-se no topo da montanha. Contemplando o gradual declínio do Sol, cada vez maior, cada vez mais vermelho, mais suculento, sobre o mar, à espera do mais belo momento, aquele que gostaria de prolongar, quando o Sol toca o horizonte, e por um segundo repousa no pedestal de si próprio – antes de desaparecer com irrevogável determinação por trás da linha do mar. Em torno de si, o atroz fragor do vulcão, preparando a próxima erupção. Fantasias de omnipotência. Amplificar aqui. Suspender acolá. Cortar o som. Como no fundo da orquestra, o timbaleiro que, depois de ter arrancado aos seus dois enormes tambores uma enfiada de sons ribombantes, poisa rapidamente as baquetas e abafa o som assentando as palmas da mão muito levemente, muito firmemente, na membrana, ao mesmo tempo que leva a orelha ao tambor para se assegurar que continua afinado (a delicadeza destes gestos depois dos portentosos movimentos da percussão e dos batimentos) – assim se poderia calar um pensamento, um sentimento, um temor.”

Ricardo Costa Correia
© Ler por aí… (2022)

 

 

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