Ler por aí… no Mediterrâneo: Breviário Mediterrânico, de Predrag Matvejević

Ler por aí… no Mediterrâneo: Breviário Mediterrânico, de Predrag Matvejević

Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar. Para os Gregos, de leste para oeste, estendia-se do Fásis, no Cáucaso, até às Colunas de Hércules; consideravam implícita a sua fronteira natural a norte e às vezes não se preocupavam com os seus limites a sul. Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins do Mediterrâneo se situavam onde a oliveira se detém. Nem sempre, nem em toda a parte é assim: há lugares na costa que não são marítimos, ou que o são menos que outros, mais afastados dela. Há lugares em que o continente não se alia ao mar, em que se revela difícil a concordância entre eles. Noutros pontos, o carácter mediterrânico abrange mais vastas porções do continente, penetra-as mais com a sua influência. O Mediterrâneo não é apenas uma geografia.”

Logo na primeira frase do seu Breviário, Predrag Matvejevitch adverte: «Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba». E, no final do parágrafo, ainda acrescenta: «O Mediterrâneo não é apenas uma geografia», como que a anunciar que a obra que se segue evoca mais do que descreve. O Mar de Matvejevitch é um território abstracto e organizado sobre uma tecedura complexa de espaço e tempo.

Não obstante o aviso, o autor, à frente, arrisca a circunscrição geodésica e declara que os limites do Mediterrâneo são assinalados pelas figueiras e que para lá da última se dissipam todos os indícios do mare nostrum – porventura no mesmo lugar onde o remo do marinheiro naufragado da lenda homérica se convertia em pá. O livro que aqui nos traz é como essa fronteira: difuso, indeciso, às vezes quase contraditório. Aliás, como poderia ser categórico se os cronistas do Mediterrâneo nem se põem de acordo quanto à sua cor: para Manuel Vicent, o Mediterrâneo é «a forma que Deus tem de ser azul»; no juízo de Van Gogh, tem «as cores de uma cavala»; no lirismo da juventude de Camus, é a «pérola latina do alvor do lírio»; Luis de Armiñán via-o «azul à distância, verde na proximidade», enquanto os poetas épicos, como refere o próprio Matvejevitch, «comparavam certas noites do Mediterrâneo à escura cor do vinho velho». O Mediterrâneo é uma área de influência que rejeita o rigor figurativo e convida à lapidação da palavra poética. 

O italiano Claudio Magris, que prefaciou este Breviário, diz, em obra da sua lavra (Danúbio), que «o continente mitteleuropeu é analítico, o mar é épico». Ora, o registo épico é, em certa medida, da natureza do sintético. O estilo de Matvejevitch, sem ser sintético, esquiva-se à convenção puramente analítica. O autor detém-se, com frequência, em detalhes e enumerações, mas esses detalhes comunicam entre eles para dar uma visão da totalidade, transgredindo a própria organização do livro, estruturada em pequenos episódios, e declinando sempre o artifício dos quadros pitorescos. À falta de melhor termo, digamos que Breviário Mediterrânico é holístico: cada pormenor só se cumpre em harmonia com os restantes, e a revelação de um pode mudar o significado do anterior. É escusado proceder à aritmética das particularidades: no Mediterrâneo, o todo será sempre mais rico do que a soma das partes. 

Está visto que Breviário Mediterrânico não é um livro de viagens convencional. Aliás, duvidamos que se resigne ao conforto dessa categoria: Breviário convida a partir, mas, uma vez cumprida essa sua primeira função, abstém-se de guiar. Matvejevitch envia-nos em busca de qualquer coisa primordial, indizível, que só se percebe no chamamento que reverbera nas águas do Mediterrâneo quando o Verão atinge o zénite e a linha do horizonte, na ascensão do sol, desaparece sob o manto de uma luz da criação, como se fosse a manhã anterior à queda. No entanto, para a encontrar, não é necessário circunvalar o litoral mediterrânico. Basta determo-nos numa praia remota da Sicília, num fiorde do Montenegro ou na costa selvagem de Almeria e ficar à escuta do ruído de fundo. No Mediterrâneo, não há uma demarcação dos tempos mítico e histórico. 

Breviário tem o atributo axiomático dos candidatos ao cânone ocidental: não se esgota numa primeira leitura. Pelo contrário, é no regresso ao seu convívio que vemos iluminarem-se-lhe matizes e subtilezas. A obra de mestre de Predrag Matvejevitch, como todos os clássicos, tem essa rara faculdade, qual sextante do espaço-tempo, de nos ajudar a perceber onde nos encontramos. Além do mais, fá-lo num fino registo literário. Em suma, trata-se de um livro invulgar, eloquente e magnífico. 

Carlos M. Fernandes
© Ler por aí… (2021)

Predrag Matvejević

Foto de Predrag Matvejević retirada do site Trans Europe Express

PredragMatvejević nasceu em Mostar, na Bósnia-Herzegovina, em 1932. O seu pai era russo de origem ucraniana, a sua mãe era croata-herzegovina. Estudou língua e literatura francesa, em Sarajevo e em Zagreb, e fez o seu doutoramento na Sorbonne, em poesia socialmente comprometida.

Foi professor universitário, de língua e literatura francesa em Zagreb, e depois línguas e literaturas servo-croatas e eslavas, em Paris e em Roma – Predrag Matvejević adquiriu a cidadania italiana e chegou a candidatar-se a deputado pelo Partido Comunista Italiano. Recebeu doutoramentos honoris causa de universidades em Itália e França, e da universidade da sua terra natal, Mostar.

Além de Breviário Mediterrânico (1987), não há outras obras de Predrag Matvejevic publicadas em Portugal. Sendo assim, estes são aqueles a que gostávamos de ter acesso em língua portuguesa – ao cuidado das editoras: Pane Nostro (2009), Venezia Minima (2002) e L’Ile-Méditerranée (2000).

Em 2015, foi proposto à Academia Sueca para o Prémio Nobel de Literatura, numa carta assinada por Claudio Magris – que assina o prefácio do Breviário Mediterrânico – e sessenta outros escritores italianos, incluindo Umberto Eco.

O episódio da acusação de difamação em 2001 não acrescenta nem retira nada à sua literatura.

Faleceu em Zagreb em 2017, e é considerado, com Fernand Braudel, um grande mediterranista.

Mediterrâneo

Paisagem mediterrânica, foto de Mojca Marič retirada do seu perfil no Instagram em mojca_mojc

O Mediterrâneo é a massa de água que separa, e une, o Sul e o Norte, o Oriente e o Ocidente. Sempre foi, e sempre será. Por isso é também, para muitos, um cenário de drama.

Palco de grandes civilizações, e por isso com uma herança histórica inigualável, o Mediterrâneo proporciona uma riquíssima diversidade de experiências ao viajante – tanto em terra como no mar.

Dá nome a um tipo de clima e a um tipo de dieta. Ambos deliciosos.

No dia em que este artigo foi publicado, PredragMatvejević faria 89 anos, e o Prémio Nobel da Literatura foi hoje atribuído ao tanzaniano Abdulrazak Gurnah.

Outros livros do Mediterrâneo:


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