Ler por aí… no Haiti: Noivado em Santo Domingo, de Heinrich von Kleist

Ler por aí… no Haiti: Noivado em Santo Domingo, de Heinrich von Kleist

No começo deste século, aquando do assassínio dos brancos pelos negros, vivia em Port-au-Prince, na parte francesa da ilha de S. Domingo, na plantação do Senhor Guillaume von Villeneuve, um negro velho e terrível de nome Congo Hoango.”

Acredito que Santo Domingo do título não se refere à cidade de Santo Domingo, hoje capital da República Dominicana, mas sim a Saint-Domingue, nome da colónia francesa na ilha de Hispaniola, dividida actualmente entre o Haiti e a República Dominicana.

A verdade é que Heinrich von Kleist nunca esteve em Santo Domingo. Nem em Port-au-Prince. Nem na ilha de Hispaniola. Sendo assim, podemos duvidar da localização, ou mesmo da existência, de alguns dos locais referidos na obra.

Mowenweiher, local perto do qual estaria escondida a família de Gustav von der Ried (o “noivo”), não se consegue localizar. Sabemos que ficaria no caminho entre Fort Dauphin (actual Fort Liberté), no norte, e Port-au-Prince, e que próximo haveria uma floresta montanhosa, com um rio, ou um lago (onde o jovem Nanki costumava pescar com os amigos), e grutas, que serviriam de bons esconderijos.

A plantação de Congo Hoango, e a casa onde decorre toda a acção desta novela, ficaria a dois dias de distância desta floresta, a nordeste de Port-au-Prince. Ali viviam a velha e ardilosa Babekan e a sua filha, Toni (a “noiva”).

A presença ameaçadora de Congo Hoango paira sempre, ao longo da narrativa: é um dos militares ao serviço do General Dessalines na guerra contra os brancos, e ouvimos sempre dizer quando se afasta e quando se aproxima. A sua figura só aparece no final, quando regressa inesperadamente à plantação e desencadeia a tragédia que se segue: Noivado em Santo Domingo é um Romeu e Julieta das plantações.

Não é unânime se Kleist seria contra a escravatura, e qual seria a sua posição quanto às questões raciais. Heinrich von Kleist era um homem do seu tempo. Noivado em Santo Domingo é uma história contada por um europeu do século XVIII para o XIX. Ao ler, sentimos nitidamente, na linguagem utilizada, a sua identificação com um dos lados desta guerra. Também é interessante, e tem um papel essencial na história, a ambiguidade da mestiçagem. Sabendo que conhecer o pensamento de Kant foi essencial para o autor, podemos pensar se, nesta história, Heinrich von Kleist terá tentado compreender a diferença entre a coisa em si e a percepção da mesma. Não estudei Kant, e não pretendo fazer aqui uma análise filosófica.

Heinrich von Kleist

Imagem de Henrich von Kleist retirada do Nonsite.org
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Imagem de Henrich von Kleist retirada do Nonsite.org

Heinrich von Kleist nasceu em Frankfurt, na então Prússia, hoje Alemanha, em 1777. No final dos estudos ingressou na vida militar, mas em 1799 retira-se do exército para estudar filosofia e depois literatura, acabando por decidir que queria ser escritor.

Com a irmã, Ulrike, viajou até Paris, fez do Louvre o seu refúgio espiritual, conheceu Humbolt e acabou por conhecer o pensamento de Immanuel Kant, que teve um efeito devastador na sua forma de viver e de pensar: Heinrich von Kleist é herdeiro dos iluministas e pioneiro do romantismo.

De novo com a irmã – sempre companheira – refugia-se na Suiça, e aí escreve a sua primeira peça de teatro, A Família Schroffenstein (sem publicação em Portugal). O Jarro Quebrado (também sem publicação em Portugal, helas) é a sua peça mas conhecida: estreou em Weimar em 1808, sob a direção de Goethe.

Michael Kohlhaas, O Terremoto no Chile e A Marquesa de O… (as três com edição portuguesa na Antígona) são as suas novelas mais célebres.

Como muitos que hoje são grandes, Kleist acabou falido e vaiado pelos seus pares. Pôs termo à vida em 1811, num pacto suicida com a sua namorada, Henriette Vogel, que sofria de uma doença terminal. Os restos mortais do par estão no bosque do lago Kleiner Wannsee, em Berlim. A sua história é contada em Amor Louco, filme de Jessica Hausner de 2014.

No Kleist Museum, em Frankfurt, podem ser vistos objectos e obras de arte que evidenciam a influência que a obra literária e dramática do escritor teve – e continua a ter – no mundo intelectual e artístico. Kafka era um grande admirador seu.

Haiti

Foto de gingerbread house de lucianf no Flickr https://www.flickr.com/photos/lucianf/4739350198/sizes/l/
Foto de gingerbread house de lucianf no Flickr

O Haiti é a parte ocidental da ilha Hispaniola, sendo a parte oriental da ilha a República Dominicana.

Foi a primeira república negra da história, e concretizou a primeira revolução escrava bem sucedida do mundo. Viria a provar o amargo desta vitória: logo depois da independência, as nações esclavagistas uniram-se num bloqueio comercial ao Haiti que durou 60 anos. A França, potência colonial que ocupava a metade ocidental da ilha de Saint Domingue, só reconheceu a independência do Haiti vinte anos depois, em 1825, e a fim de compensar as perdas comerciais daí resultantes, exigiu à recém-nascida república do Haiti uma indemnização que levou 122 anos a ser paga – só em 1947 é que o Haiti pagou a última prestação aos descendentes dos proprietários de escravos e ao governo francês.

As consequências desta história observam-se ainda hoje. O Haiti é um dos países mais pobres do mundo, e quando comparado com a República Dominicana, apresenta um PIB per capita que é cerca de um décimo desta.

Por isto, ou não, encontramos muitos avisos para termos muito cuidado ao visitar o Haiti – o Haiti não é o “paraíso”, como é a sua vizinha República Dominicana. A vantagem é que, ao contrário desta, o Haiti pode ser um dos destinos nas Caraíbas que ainda oferece alguma genuinidade.

Mais do que as praias, idênticas às do restante mar caribenho, no Haiti há um património histórico e cultural que é único. Participar numa cerimónia voodoo, visitar a cidadela de Laferriére, património da Unesco, conhecer as casas gingerbread (inspiradas nos chalets, feitas de madeira trabalhada e colorida) e provar a comida, uma cuisine de raiz africana e ingredientes locais. O rum haitiano chama-se Clairin e reclama a sua base de estirpes locais de cana de açúcar.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2022)


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