Ler por aí… no al-Andalus: Crónica do Rei Poeta al-Mu’tamid, de Ana Cristina Silva

‘Chegou o decreto do Altíssimo e, com ele, o fim.’

Coube-me a mim fechar-lhe os olhos. Perdurar é privilégio de Alá, mas não consigo evitar as lágrimas enquanto rezo por al-Mu’tamid que foi meu rei e um poeta bem mais auspicioso do que o seu trágico destino. Luto contra esta dor como contra um dilúvio, ainda assim não paro de chorar. Faço por me lembrar que ele nunca me perfilhou, que não passei de um escravo, invisível aos seus olhos como tantos outros serviçais. Trabalho inútil: como um artífice que se esgota a copiar uma obra-prima, obstino-me em recordar as nossas conversas. São por de mais preciosas as recordações desses momentos em que ele me dedicou a sua atenção para que as enterre num qualquer buraco deste deserto.”

A ocupação árabe da Península Ibérica durou mais tempo do que a ocupação romana, especialmente no Sul de Espanha, em que durou quase 800  anos e terminou há pouco mais de 500 anos – ou seja, o Sul de Espanha está há menos séculos “sem mouros” do que esteve “com mouros”. 

Quando estudamos História na escola, aprendemos tudo sobre a Reconquista Cristã, mas pouco sobre a presença dos “mouros” na Península Ibérica e a herança que nos deixaram. Sempre vimos os “mouros” como aqueles que odiávamos e expulsámos, e os reis cristãos como os heróis. Aqui, tal como n’As Cruzadas Vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf, a perspectiva é a oposta. 

Al-Mu’tamid nasceu em Beja, viveu em Silves, reinou em Sevilha e morreu em Aghmat, Marrocos.

O local exacto em que al-Mu’tamid terá nascido não se conhece. Não foi certamente no Castelo, uma vez que al-Mu’tamid era filho ilegítimo do rei al-Mu’tadid com uma bela berbere filha de um comerciante de Beja (assim nos conta Ana Cristina Silva). Esta berbere, mãe de al-Mu’tamid, tornou-se a terceira esposa do harém, mas preferiu viver com a sua família em Beja, e foi para a corte de Sevilha apenas quando al-Mu’tamid fez seis anos de idade. Assim, o local de nascimento de al-Mu’tamid terá sido uma casa numa das ruas de Beja – sendo que a cidade árabe foi totalmente arrasada, têm sido encontrados vestígios da ocupação árabe na zona a Sul do Castelo. Ler por aí… também é, muitas vezes, fechar os olhos e imaginar.

Em Silves, al-Mu’tamid habitou o magnífico Palácio das Varandas, de que se encontram vestígios na fachada do Castelo. A fim de testar as suas capacidades, o seu pai, o rei al-Mu’tadid nomeou-o governador da cidade. Foi no Palácio das Varandas que al-Mu’tamid viveu em felicidade e lassidão, em companhia do seu amigo, o poeta Ibn Ammar. Juntos, tornaram Silves – Shilb – um importante centro cultural do mundo islâmico da época.

O mundo parecia-me um lugar menos frio e pronto a ser preenchido por novas diversões desde que Ibn Ammar fora habitar no palácio das varandas. Ele deu-me a conhecer novos prazeres. Pus de lado a obsessão de agradar ao meu pai. Éramos jovens e a cidade pertencia-nos. Tinha dinheiro para contratar músicos, bailarinas, poetas e filósofos para abrilhantar as festas na minha pequena corte. Uma felicidade nascente transmitiu à minha estadia em Silves um sentimento de euforia que nunca mais vim a experimentar da mesma maneira em nenhum outro lugar.”

Quando al-Mu’tamid sucede ao seu pai como emir, troca Silves por Sevilha, centro político da taifa que irá governar. O palácio de al-Mu’tamid em Sevilha situava-se no interior do edifício que é actualmente o Real Alcazar e está a ser revelado ao mundo com escavações arqueológicas muito recentes. 

O reinado de um Rei-Poeta deveria ficar escrito na história como uma época de paz. 

(…) a função de governante não se ajustava ao meu perfil. Cada um tem as suas ambições, o seu secreto ideal. O meu era o de celebrar a beleza através da poesia. (…) desejava que durante o meu reinado se construísse um mundo onde os modos de vida fossem melhorados. Nesse tempo idílico, os soldados patrulhariam as nossas fronteiras sem se envolverem em escaramuças, quase não haveria guerras; a energia dos meus súbditos seria desviada para o cultivo das terras e para a construção de belos palácios e mesquitas. O mar seria sulcado por magníficos navios que serviriam tanto para as trocas comerciais como para levar mensagens de paz a outros povos. Nesta nova época, os homens e as mulheres do al-Andalus de todas as raças e credos, seriam prósperos e felizes.

Mas não foi assim. A partir de Sevilha, al-Mu’tamid comandou batalhas, cercos e guerras. Acabou sendo traído, derrotado e forçado a abandonar o seu palácio em Sevilha e o al-Andalus, e exilado em Marrocos. 

‘Que espécie de rei pode perder o seu reino?’, pergunto-me ainda surpreso com tudo o que aconteceu. Não sei indicar com precisão o ponto de viragem que deu início à minha tragédia. Quase sempre os seres humanos – e não apenas os homens de estado – se defrontam com uma qualquer armadilha que os conduzirá ao naufrágio.”

No seu exílio em Marrocos, al-Mu’tamid passou alguns anos em Tagrart, uma localidade que não aparece no Google Maps nem na Wikipedia. Ao que parece, tratava-se de uma vila almorávida situada próximo de Agadir. Os anos finais de al-Mu’tamid foram passados em Aghmat, uma pequena cidade de origem berbere próximo de Marraquexe. Terá sido um importante posto almorávida antes do florescimento de Marraquexe. Ambos os lugares foram habitados por al-Mu’tamid em condições muito afastadas daquelas em que esperaríamos ver um rei. 

Em Aghmat, o túmulo de al-Mu’tamid pode ser visitado. Ele ali está até hoje, ao lado da sua amada Itimad.

Ana Cristina Silva

Ana Cristina Silva, foto retirada do Jornal de Letras em https://visao.sapo.pt/jornaldeletras/2016-05-27-Ana-Cristina-Silva-Uma-historia-romena/
Ana Cristina Silva, foto retirada do Jornal de Letras em https://visao.sapo.pt/jornaldeletras/2016-05-27-Ana-Cristina-Silva-Uma-historia-romena/

Ana Cristina Silva nasceu em Lisboa e é professora universitária, especializando-se em psicologia da linguagem. E por isso, ou não necessariamente, domina a linguagem e a língua portuguesa. Mariana, Todas as Cartas (2002) foi o seu primeiro romance, e desde então já publicou mais doze. Crónica do Rei-Poeta al-Mu’tamid (2010) foi o seu sétimo romance. Cartas Vermelhas foi Livro do Ano do Expresso em 2011. Mereceu o Prémio Urbano Tavares Rodrigues em 2012, com O Rei do Monte Brasil, e o Prémio Fernando Namora em 2017, com A Noite não É Eterna. As Longas Noites de Caxias (2019) é o seu mais recente romance.

Sevilha, o al-Andalus e a Andaluzia

Palácio de Al-Mu'Tamid no Alcazar de Sevilha, foto de Raúl Caro / EFE, retirada do jornal El Mundo, em https://www.elmundo.es/andalucia/2018/07/15/5b4b88fa468aeb3c018b460a.html
Palácio de Al-Mu’Tamid no Alcazar de Sevilha, foto de Raúl Caro / EFE, retirada do jornal El Mundo, em https://www.elmundo.es/andalucia/2018/07/15/5b4b88fa468aeb3c018b460a.html

A capital da Andaluzia é uma cidade rica em história e em vida. A herança árabe perdurou até ao século XV e encontra-se em cada esquina. Os pátios interiores e as laranjeiras são os primeiros sinais.  Encaminhamo-nos para o Alcazar e tudo ali nos transporta para as Mil e Uma Noites. O palácio de al-Mu’tamid fica no interior deste magnífico edifício.

Sevilha é também a cidade de onde partiram Cristóvão Colombo e Fernão de Magalhães – no Guadalquivir, no bairro de Triana, está a milha zero da viagem de circum-navegação. Foi também o centro de poder e de operações da Inquisição espanhola, e berço do pintor Velasquéz e do poeta Becquer. É o lugar certo para apreciar o flamenco, herança árabe e gitana que os reis católicos não conseguiram erradicar. 

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2020)

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