Ler por aí… na Noruega: Mistérios, de Knut Hamsun

No pino do Verão, começaram a acontecer coisas extraordinárias numa pequena cidade costeira norueguesa. Apareceu um estranho chamado Nagel, um indivíduo peculiar que chocou a cidadezinha com o seu comportamento excêntrico e que depois desapareceu tão subitamente quanto chegara. A dada altura, recebeu a visita de uma misteriosa jovem que lá foi por Deus sabe que motivo e que se atreveu a permanecer com ele apenas algumas horas. Mas não foi assim que tudo começou…”

De que mistérios nos fala Mistérios?

De todos: o mistério da inadequação, o do amor, o da loucura, o da vida… Nagel – que o autor teve o cuidado de nos avisar logo desde o princípio, é um «charlatão estranho e singular» – chega a uma aldeia na costa norueguesa. Tem o cuidado de fazer com que reparem nele desde o princípio: desembarca as bagagens, mas não desembarca ele e no dia seguinte chega por terra, quando lhe teria sido mais fácil vir por mar. Inicialmente, Nagel recusa todas as propostas de contacto que lhe fazem. Não fala com ninguém, não responde mas isso em breve muda.

E se muda! Nagel vai afundar a sua estranheza em torrentes de palavras, de personagens, de mentiras – mente para se diminuir, não para beneficiar o que quer que seja -. Numa aldeia em que todos se conhecem e cada um tem o seu papel a desempenhar, Nagel é a carta fora do baralho – mas é também ele que nos ajuda a perceber muitos dos mistérios que há por detrás de cada uma das personagens.

Das quais a mais interessante é sem dúvida Minute, o idiota da aldeia, que vai desempenhar um papel crucial em toda a intriga. E que no fim talvez não seja assim tão idiota como pretende.

Mistérios é um romance estranho, caótico, obscuro, cheio de «caminhos que se bifurcam», tantas vezes exasperante.

Chegamos ao fim e sabemos tanto de Nagel como sabíamos ao princípio (mas sabemos muito mais de todos os outros. Nagel age como um revelador naquela pequena comunidade).

 

Knut Hamsun

Knut Hamsun

Hamsun (04 de Agosto de 1859 – 19 de Fevereiro de 1952) foi um precursor. É a ele que muitos dos grandes nomes do romance moderno vão beber: de Woolf a Joyce, Proust, Mann, Kafka, Gorki, Zweig, Hemingway, Hesse… A lista é interminável. «O objecto da literatura moderna devem ser os meandros da mente humana», dizia.

Racista – dizia que os negros eram uma forma primitiva de humanidade – anti-igualitário, durante a segunda guerra mundial apoiou Hitler. Foi levado a tribunal, condenado, fez cinco meses de prisão e teve de pagar uma multa elevada. Recusou-se a pretender-se senil e nunca se arrependeu das suas simpatias nazis. Ainda hoje os noruegueses têm com ele uma relação ambivalente. Um seu biógrafo norueguês afirmou: «Não conseguimos impedir-nos de o amar, apesar de o termos detestado todos estes anos. Este é o nosso trauma Hamsun. É um fantasma que não fica no túmulo.»

 

A Noruega

Pequena cidade costeira na Noruega

A Noruega é o país dos fiordes. Imaginamos junto a um deles a pequena cidadezinha onde Nagel chegou. O mar entra terra adentro, ou a terra entra mar adentro, em fenómenos geologicamente jovens. Foi esta costa agreste o cenário dos vikings e das suas sagas e epopeias.

Hoje em dia, estas pequenas cidades são atracções turísticas, com as suas casas coloridas, o mar a molhar-lhes os pés e a natureza no quintal.

 

Luís Serpa
© Ler por aí… (2020)

 

 


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