Ler por aí… na Nigéria: Bestas de lugar nenhum, de Uzodinma Iweala

Ler por aí… na Nigéria: Bestas de lugar nenhum, de Uzodinma Iweala

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Começa assim. Sinto comichão como insecto que rasteja na pele, e depois cabeça começa a picar mesmo no meio dos olhos, e depois quero espirrar porque o meu nariz comicha, e depois bufa ar no ouvido e ouço uma data de coisa: tique-tique de insecto, ronco de camião como animal, e depois alguém que grita ÀS VOSSAS POSIÇÕES JÁ! RÁPIDO! RÁPIDO! RÁPIDO! TUDO A MEXER! TOCA A ANDAR OH! com voz que raspa no meu corpo como faca.”

Ler Bestas de lugar nenhum é um murro no estômago. Lembro-me de, em criança, pegar num jornal e ver uma fotografia de crianças-soldado na Libéria. Armadas com metralhadoras. Aquilo passou a ser, para mim, o paradigma da maldade do mundo. 

Agu é uma criança-soldado. Apanhado na teia de uma guerra que não entende, mata para não morrer. Como os outros, torna-se uma “besta”. Mas não entende porque tem de lutar e porque tem de matar.

Agu luta numa guerra que pode ser na Nigéria mas pode ser também na Libéria.

Como diz o autor numa nota final:

A paisagem e as tradições culturais das minhas personagens foram fortemente influenciadas pela paisagem e tradições culturais nigerianas, mas a história não se passa na Nigéria, nem as personagens pertencem a nenhuma das inúmeras etnias da Nigéria. (…) a aldeia de Agu podia muito bem ser a aldeia de onde a minha família é oriunda.”

Na verdade, isso nem é importante, porque estes meninos não entendem as suas guerras, não têm ainda a noção de nação, e por isso são “de lugar nenhum”. Beasts of no nation – e o título original é roubado a Fela Kuti, nigeriano como o autor. Ainda que as bestas de Fela Kuti fossem outras – também podemos interpretar o título do livro à la Fela Kuti, em que as “bestas de lugar nenhum” são os poderosos que jogam o tal xadrez mundial, criam guerras para vender armamento e para controlar o preço do barril de petróleo.

Agu não sabe nada disto, só sabe que tem de obedecer ao comandante:

Se eles mandam TU MATA, eu mato. TU DISPARA, eu disparo. TU ENTRA NA MULHER, eu entro na mulher sem dizer nada mesmo se não gosto. Mato gente toda, mãe, pai, avó, avô, soldado. É tudo igual. “

E o que nos atormenta nesta leitura é esta fala infantil. A fala na primeira pessoa é-nos transmitida com um tanto de infantilidade na voz, e isso é que magoa. Porque não perdoamos que ponham armas nas mãos de crianças e as façam matar. Porque, como diz José Amaro Dionísio, autor do exórdio, logo que abrimos o livro:

(…) a criança-soldado que sangra este livro é filha de cada um de nós.”

Agu diz que não é um menino mau. Agu quer é voltar para casa, e comer e dormir – Agu está a crescer. Quer ser médico ou engenheiro. Lembra-se da mãe e do pai, e da sua casa antes da guerra, e das festas e das comidas e das danças na sua terra. A memória é, também aqui, o único refúgio.

Agu fala com esta voz infantil, com muito pidgin, que é uma espécie de crioulo de base inglesa, usada na Nigéria e em outros países da África Ocidental colonizados por ingleses. O pidgin tornou-se uma língua franca entre as várias – muitas – etnias. O autor explica isto na sua nota final, e conclui:

Não sei se esta história poderia ter sido contada da mesma maneira com outra fala.”

A tradução de Carla da Silva Pereira tentou, e penso que conseguiu, manter o tom infantil com este colorido africano, mas em português.

O livro é de 2005, e foi adaptado ao cinema em 2015, pelo realizador Cary Joji Fukunaga. O firme foi filmado no Gana, mas podia ter sido na Nigéria.

Uma palavra final para o grafismo, não só da capa, mas das ilustrações que encontramos no interior. É do Ricardo Castro, esse que é O Homem do Saco, que faz cartazes magníficos, e que generosamente criou o actual logotipo do Ler por aí…

Uzodinma Iweala

Uzodinma Iweala
Foto de Uzodinma Iweala retirada do website da revista Buala, em 
https://www.buala.org/pt/a-ler/o-horror-tambem-tem-infancia-notas-sobre-bestas-de-lugar-nenhum-de-uzodinma-iweala

Escritor norte-americano de origem nigeriana, e é também médico. Bestas de lugar nenhum (2005) é o seu primeiro romance. O segundo é Speak no evil (2018) e ainda não está publicado em Portugal.

Mereceu o Young Lions Fiction Award da New York Public Library em 2006 e em 2007 foi incluido na lista dos 20 melhores jovens romancistas americanos da Granta.

É conhecido pelo seu trabalho humanitário e desde 2018 é CEO do Africa Center, instituição nova-iorquina que nos põe em ligação com a África contemporânea.

A Nigéria

Lagos, Nigéria
Foto de Lagos, na Nigéria, de Namnso Ukpanah disponível no Unsplash, em https://unsplash.com/photos/6UqJTfoXIq8

Uzodinma Iweala diz na nota final que não situa esta história na Nigéria, porque não quer que fiquemos com a impressão de que a Nigéria é um local violento.

A Nigéria é hoje um dos países mais poderosos de África. E é também um interessante destino de viagem, de natureza e também histórico. Ocupa uma área muito grande na África Ocidental, e abrange áreas de floresta tropical, montanha e savana. Visite os parques.

Procure encontrar as várias camadas históricas e culturais, desde as das diversas etnias e reinos pré-coloniais, passando pela chegada dos portugueses ao Golfo da Guiné e ao comércio com a Europa e Américas (não apenas, mas também de escravos, e disso fala Bruce Chatwin, em O Vice-Rei de Ajudá – o reino do Daomé abrangia parte do território que é hoje a Nigéria), pela colonização inglesa, até à Guerra Civil (1967-1970) em que Agu combateu e à actualidade do petróleo e da agro-indústria.

Também na comida se podem encontrar estas camadas. O óleo de palma é base, sendo esta uma cozinha africana continental. As especiarias, os picantes, o colorido, são uma festa. Agu tinha saudades das comidas:

(…) o inhame com óleo de palma encarnado, e peixe, e carne, e ovo com pimenta que fazem a boca arder como fogo e por isso temos que beber muita água.”

E das danças:

Se no acampamento alguém vai e dança ou canta, assim para passar o tempo só e não pensar na guerra, fecho os olhos e vejo que estou na minha aldeia e que adoramos muito dançar. (…) BUM! ouvimos a primeira pancada no tambor e AIIIII! grita o primeiro dançarino para gente toda calarem e verem a dança. Os dançarinos dançam todos a Dança do Guerreiro e aparecem com sininho nos tornozelos e catana de madeira que fizeram eles. As máscaras todas na cara estão pintadas com cores tão vivas como nascer do sol, cores que dançam quase tanto como eles quando batem tambor e tocam sininho.”

A Nigéria é o país de Fela Kuti e de Sade Adu.

Também de Chimamanda Ngozi Adiche, do Nobel Wole Soyinka – de que apenas um – 1 – um livro está publicado em Portugal (Os intérpretes, pela Minotauro), de Chinua Achebe (nada disponível em Portugal) e de Buchi Emecheta (nada disponível em Portugal). Atenção, editoras!

Margarida Branco
© Ler por aí… (2021)

Quando este artigo foi publicado, havia uma cerca sanitária em Odemira, onde trabalhadores estrangeiros eram escravizados.

Outras edições do livro:

Beasts of no nation
No Reino Unido, da John Murray
Beasts of no nation
Nos Estados Unidos, da Harper Collins


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