Ler por aí… na Língua Portuguesa: Mátria, de Natália Correia

Ler por aí… na Língua Portuguesa: Mátria, de Natália Correia

Falamos todos a mesma língua?

Ontem, tomei o mata-bicho, meti-me num machimbombo e fui ver o Tejo.
Precisava de sozinhar-me, como diria o escritor Mia Couto. Não levei comigo nem a minha garina.
Na minha pasta, tinha um pacote de mancarras (adoro alcagoitas!) e um suco de manga para o meu café da tarde, embora faltasse café, pois todos os cafés estavam fechadinhos. Normalmente, bebo um café sem ponta, mas naquela tarde não tomei nenhum.
«Quero saçaricar em liberdade! », gritava. Mas quem me ouvia? Tinha-me sozinhado, ninguém me ouvia.
Os bondes andam vazios, já não há bichas (pera aí?) de turistas esperando pelo número vintchioito
Resolvi comprar uma garrafa de vinho e partilhá-la comigo mesmo. Acabei por me bicar, como é de se esperar. E fiquei a pensar: sou ou estou bêbado? É uma pena as outras línguas não fazerem distinção nenhuma.
Depois, bebi outra gelada, mas já não tinha jingubas para comer.
Porém, tenho esta língua, tão labirinticamente amalucada e tão bela, com a qual me translado de um lado para outro do mundo. E sonho em todos os sotaques. E posso ter em mim todas as pronúncias. Tenho a liberdade de usar a norma que quero, porque esta língua não é a minha pátria, mas é, sim, a minha mátria. Já tinha pátria. Faltava-me uma mátria. Encontrei-a há sete anos e nunca mais a larguei. Todos precisamos de ter uma mátria. E a minha mátria é a língua portuguesa.

Matteo Pupillo
©2020 Ler por aí…

 

Natália Correia

Natália Correia, foto retirada do escritas.org em https://www.escritas.org/pt/natalia-correia
Natália Correia, foto retirada do escritas.org em https://www.escritas.org/pt/natalia-correia

Natália Correia nasceu na Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, nos Açores, em 1923. Fixa-se em Lisboa aos 11 anos. Foi poeta, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora. Mátria (1967) foi o seu oitavo livro de poesia, e foi também um programa de televisão onde, na década de 80 definiu o conceito de Matricismo, que enaltece o erotismo da mulher e a define como a matriz primordial da humanidade.

Foi também deputada, e teve uma intensa acção política, durante e após o Estado Novo. Fundou o Botequim da Graça. Foi Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e da Ordem da Liberdade.

Faleceu aos 70 anos, numa noite ao regressar do Botequim. O seu espólio está guardado na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, que o partilha com a Biblioteca Nacional.

 

A Língua Portuguesa

Língua Portuguesa, imagem do Instituto Camões para o Dia da Língua Portuguesa em https://www.instituto-camoes.pt/sobre/comunicacao/dia-da-lingua-2018/dia-lp-ucrania-2018
Língua Portuguesa, imagem do Instituto Camões para o Dia da Língua Portuguesa em https://www.instituto-camoes.pt/sobre/comunicacao/dia-da-lingua-2018/dia-lp-ucrania-2018

A Língua Portuguesa é território. Língua oficial em oito países, é falada por 250 milhões de pessoas em todo o mundo, como língua materna. As suas múltiplas variantes são a sua graça. Desde 1990 que sofre maus tratos.

 


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