Ler por aí… em Benfica, Lisboa: Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto

Ler por aí… em Benfica, Lisboa: Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto
 Este artigo foi inicialmente publicado no website antigo do Ler por aí... em Junho de 2013.

Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer.

Nos últimos meses da minha vida, quando ainda conseguia fazer a pé o caminho entre a nossa casa e a oficina, sentava-me numa pilha de tábuas e, sem ser capaz de ajudar nas coisas mais simples: aplainar o aro de uma porta, pregar um prego: ficava a ver o Francisco a trabalhar compenetrado, dentro de uma névoa de pontos de serradura. Em novo, também eu tinha sido assim. Nessas tardes, tanto tempo impossível depois de ter sido novo, certificava-me de que não estava a ver-me e, quando não aguentava mais, pousava a cabeça dentro das mãos. Segurava o imenso peso da minha cabeça: mundo: tapava os olhos com as mãos para sofrer dentro da escuridão, dentro de um silêncio que fingia. Depois, nas últimas semanas da minha vida, fui para o hospital.

Uma oficina de restauro de pianos em Benfica, mas não nos prédios que hoje lá existem. Era no núcleo antigo de Benfica que ficava a oficina. Dos pianos velhos que jaziam no cemitério retiravam-se peças para os pianos a reparar. Dentro de um piano, uma peça de um piano mais velho, como no filho, e no neto, há peças do pai e do avô. A história desenvolve-se neste círculo, e alterna entre duas épocas e duas gerações, – a renovação. Nascimentos e mortes coincidem no tempo. O mais velho dá lugar ao mais novo. A vida acontece no entretanto, sempre repetida, mas diferente.

O ponto de partida é Francisco Lázaro, atleta português que faleceu nos Jogos Olímpicos de Estocolmo em 1912, vítima de dopping. A batida do coração marca o ritmo da narrativa: sístole – diástole. A certa altura, começamos a sentir o ritmo ficar descompassado – e admiramos a técnica narrativa de Peixoto.

O adro da Igreja de Benfica ainda guarda algum do ambiente do local de há algumas décadas atrás. Embora pouco reste, sente-se no muro e leia por aí Cemitério de Pianos. Em alternativa, também pode instalar-se num dos bancos do Largo da Luz.

José Luís Peixoto

Foto de José Luís Peixoto de origem desconhecida

 José Luís Peixoto é um jovem autor, nascido a 4 de setembro de 1974, em Galveias, Ponte de Sôr. Concluiu a sua licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade Nova de Lisboa. Foi professor na Cidade da Praia (Cabo Verde) até que, em 2000, se dedicou profissionalmente à escrita.

Tem publicado poesia, teatro e prosa. Cemitério de Pianos recebeu o Prémio Literário Cálamo, em Saragoça, entregue ao melhor romance traduzido publicado em Espanhol no ano 2007. Em 2009, foi um dos 10 finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura.

Nos anos 1997, 1998 2 2000 recebeu o Prémio Jovens Criadores, na área de literatura. Os seus romances estão publicados na Finlândia, Holanda, no Brasil, nos Estados Unidos, entre outros países, estando traduzidos num total de vinte idiomas.

O autor tem um prémio literário, criado pelo Município de Ponte de Sôr, com o seu nome, destinado a jovens autores.

Benfica

Colagem a partir de fotos retiradas do blog Retalhos de Benfica

 Benfica era então uma aldeia de camponeses (“saloios”), onde abundavam hortas, pomares e jardins. Com eles também algumas ordens religiosas se instalavam no território.

Dispersas pela área da freguesia há uma série de quintas que recordam os tempos não muito distantes em que toda esta área de Benfica era um conjunto idílico de quintas verdejantes onde os habitantes tratavam das hortas e dos gados que, em dias certos, iam vender aos grandes mercados de Lisboa, depois de caminhar ao longo de duas penosas léguas de estrada.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2013)


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