Ler por aí… no Japão: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

Ler por aí… no Japão: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata
Ler por aí... no Japão: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

‘E evite, peço-lhe, as brincadeiras de mau gosto! Não tente meter os dedos na boca da pequena que dorme! Não é de bom tom!’, recomendou a hospedeira ao velho Eguchi.

No primeiro andar havia apenas duas divisões, a de oito esteiras, onde Eguchi e a mulher estavam a conversar, e a outra do lado, um quarto de dormir, provavelmente; quanto ao reduzido rés-do-chão que tinha visto ao entrar, não parecia possuir nenhum salão, pelo que a casa não merecia o nome de hotel. Nenhum letreiro, aliás, indicava que se tratasse de um albergue. E mais ainda, o mistério dessa casa impedia, sem dúvida, essa espécie de publicidade. Nela não se ouvia o mínimo barulho. Exceptuando a mulher que tinha recebido o velho junto ao portão e com a qual ele conversava nesse momento, não tinha dado pela presença de qualquer alma viva; mas Eguchi, que ali ia pela primeira vez, não tinha conseguido aperceber-se se era a patroa ou uma empregada. Fosse como fosse, mais valia, por certo, que o visitante se abstivesse de fazer perguntas supérfluas.”

Uma casa onde jovens raparigas dormem sob o efeito de drogas, para deleite de homens “no inactivo”. Eguchi foi a esta casa para experimentar, e ficou tão impressionado que não resistiu a ir mais algumas vezes dormir com estas jovens, inanimadas porém extraordinariamente belas.

Não sabemos onde se situa a Casa das Belas Adormecidas. Apenas nos é dito que fica numa região quente, e sabemos que fica junto ao mar – o barulho das ondas na falésia soa ruidosamente dentro da casa. O som das ondas a rebentar na falésia cria uma atmosfera fantasmagórica – fez-me pensar na Pousada da Jamaica (Jamaica Inn), o filme de Alfred Hitchcock, não o romance de Daphne du Maurier, que não li.

Imaginamos uma casa tradicional japonesa, mas percebemos que o quarto de hóspedes tem uma porta, que lhe dá privacidade, em vez dos típicos painéis deslizantes:

Olhou mais atentamente: era provável que em vez da porta de batente que separava as duas salas tivesse havido originalmente painéis móveis que posteriormente tinham sido substituídos pela porta para criar o quarto secreto das ‘Belas Adormecidas'”

A sala principal, onde a hospedeira recebe Eguchi, é uma sala ampla: Eguchi refere-se a esta divisão como a sala de oito esteiras, ou oito tatamis, os tradicionais tapetes, que têm dimensões padrão e são usados como unidade de medida das áreas das divisões. Uma divisão de oito esteiras é considerada grande.

Nessa sala, Eguchi dá-nos conta do to-ko-no-ma, um espaço recolhido e decorado para apreciação dos visitantes. Pesquisando, descobri duas curiosidades: os visitantes mais ilustres são instalados de costas para o to-ko-no-ma, por uma questão de modéstia do dono da casa (desta forma, elimina qualquer intenção de ostentação). E a decoração do to-ko-no-ma é mudada em cada estação do ano. Numa das últimas visitas de Eguchi à Casa das Belas Adormecidas, dá-nos conta desta prática:

No to-ko-no-ma, a imagem da paisagem de montanha de folhagem outonal tinha, como devia, dado lugar a uma paisagem de Inverno. Era, evidentemente, uma reprodução”

A introdução de Yukio Mishima fala de uma escrita virada para dentro, e de facto tudo se passa dentro daquela casa, e dentro da mente de Eguchi – é a sua mente, a sua memória, que nos permitem escapar momentaneamente para fora da casa. Em cada visita à Casa das Belas Adormecidas, sempre com uma rapariga diferente, Eguchi recorda as mulheres da sua vida. É também Mishima que nos fala de um erotismo na escrita que é fragmentário, e não total: mostra-nos cada pormenor, cada sensação:

(…) como se fossem as palavras a acariciá-la.”

O erotismo é aqui apenas sugerido, e é envolto em melancolia.

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Kawabata

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Foto de Kawabata retirada do website da Obvious Magazine, em lounge.obviousmag.org

Nasceu em Osaka em 1899 e ficou órfão muito jovem. Estudou Inglês e depois Literatura JAponesa na Universidade Imperial de Tóquio. Foi jornalista e contista e romancista. Com outros escritores, fundou um movimento artístico que se opunha à literatura japonesa clássica, mas também à literatura que vinha dos movimentos proletários; advogava a arte pela arte, e a proposta de novas sensações, impressões e percepções através da literatura.

Em 1968, Kawabata é galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Em 1972, aparentemente, suicidou-se com gás.

Além de A Casa das Belas Adormecidas (1961), é o autor de Terra de Neve (1937) e Kyoto (1962).

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Japão

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Foto de Jordy Meow retirada da galeria do Canva

O Japão das paisagens deslumbrantes, o Japão dos templos budistas, o Japão do Caminho de Bashô, o Japão da Cerimónia do Chá, o Japão da Grande Onda de Hokusai, o Japão do Mangá, mas também o Japão da bomba de Hiroshima, o Japão das fábricas super-eficientes, o Japão do Just-In-Time e do KaiZen, o Japão das cidades de néon, o Japão dos apartamentos minúsculos, o Japão dos sem-tempo, o Japão hiper-tecnológico. 

É dos países mais paradoxais e por isso mais fascinantes.

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2021)

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