Ler por aí… na Terra Nova, Canadá

“Este é o relato de alguns dos anos da vida de Quoyle, nascido em Brooklin e criado numa série de enfadonhas cidades no Norte do estado de Nova Iorque.

Pele manchada de urticária, entranhas revolvidas por gases e cãibras, sobreviveu à infância. Na universidade pública, mão presa sobre o queixo, camuflou a angústia com sorrisos e silêncio. Foi tropeçando pelos vinte anos, trinta, aprendendo a separar os sentimentos que tinha da vida que levava, contentando-se com o nada. Comia prodigiosamente, apreciava um bom pernil de porco e batatas com manteiga.

Empregos: distribuidor de chocolates de máquinas de venda automática, turno da noite como empregado de balcão numa loja de conveniência, jornalista de terceira categoria. Aos trinta e seis, enlutado e trespassado pela dor e por um amor frustrado, Quoyle rumou para longe, em direcção à Terra Nova, o rochedo que gerara os seus antepassados, lugar onde nunca tinha estado e onde nunca pensara ir. 

Um lugar marinho, e Quoyle temia a água, não sabia nadar. Vezes sem conta, o pai soltara-lhe os dedos rígidos e atirara-o para dentro de piscinas, riachos, lagos e ondas. Quoyle sabia bem o sabor do sal e das algas.”

Unha de Fateixa é um lugar imaginado, mas se existisse deveria situar-se na costa Norte da Terra Nova, entre Trinity Bay e Conception Bay, a Oeste de S. João da Terra Nova. É uma costa agreste, rochosa e batida pelo vento gelado do Pólo Norte, de onde se assiste à passagem lenta de icebergues.

A navegação por ali é perigosa, não só por causa dos icebergues, mas também devido aos baixios rochosos que destroem os cascos dos barcos de quem não conhece cada metro quadrado  daquela beira-mar. E como a estrada entre Unha de Fateixa e a Ponta dos Quoyles é bastante má, Quoyle teve mesmo de comprar um barco e aventurar-se no mar perigoso, naquele primeiro Inverno na Terra Nova.

A casa da família na Ponta dos Quoyles, que tinha sido arrastada sobre o gelo desde uma pequena ilha vizinha, estava presa ao solo por cabos como uma tenda, e não por alicerces. Esta casa, desconfortável e feia, onde ninguém gosta de viver, representa o legado de um pesado passado familiar. Durante uma tempestade, a casa voa e desaparece.

O livro The Shipping News tem uma organização atraente, em que cada capítulo inicia com a explicação de um nó de marinharia que permite intuir algo sobre o próprio tema do capítulo. Logo no primeiro, ficamos a saber que o nó de Quoyle é uma espiral de corda, de forma plana, que como um tapete pode ser pisada pelos marinheiros. Este era o Quoyle antes de partir para a Terra Nova.

O livro fala de como ao chegar a um lugar onde ninguém nos conhece nos podemos libertar da pessoa que éramos no lugar anterior, reinventando uma nova pessoa para sermos mais nós próprios.

Esse lugar interage como se se tratasse de mais um personagem da história. Ao longo da história, apercebemo-nos que em Unha-de-Fateixa a dureza e adversidade da terra gelada contrastam e são amenizadas pelo calor que existe nas pessoas de uma comunidade pequena, em que existe a generosidade e a entreajuda.

Apoiado pelos novos amigos, Quoyle é obrigado a enfrentar os seus medos e fantasmas e reconstruir-se como homem, num lugar tão pouco acolhedor e tão carregado de obscuras memórias familiares que aos poucos vai conhecendo.

The Shipping News será o título da secção de notícias do porto (este título nunca chega a ser lido no texto, pelo menos na versão em português) do Grulhaço Terranovense, o tablóide local onde Quoyle começa a trabalhar quando chega à Terra Nova. A este propósito, a autora aproveita para discutir o modo como se faz jornalismo hoje em dia em muitos jornais. E também a este propósito, ouvimos Quoyle a colocar títulos garrafais aos acontecimentos da sua vida pessoal, como se estas fossem notícias. Um traço de estilo, que de início parece estranho, mas de que vamos gostando à medida que avançamos.

A capa da Cavalo de Ferro aproveita o design de um jornal para publicar notícias acerca do livro. Que engenhoso!

The Shipping News originou o filme com o mesmo nome, realizado por Lasse Halstrom, e com a participação de Kevin Spacey, Cate Blanchet, Judi Dench e Julianne Moore.

No Verão, sente-se na ponta de um pequeno cais, ou numa esplanada, enquanto prova um hambúrguer de lula. Se visitar a Terra Nova no Inverno, instale-se numa das cottages que se alugam para férias, e de lareira acesa, leia o livro.

 

E. Annie Proulx

Foto retirada do site Swisseduc www.swisseduc.ch

A autora de The Shipping News, E. Annie Proulx, nasceu em 1935 no Connecticut, na região da Nova Inglaterra. Estudou História da Renascença, do Norte do Canadá e da China, em Vermont e depois em Montreal, onde deixou um doutoramento por terminar, para se dedicar ao jornalismo, em 1975.

Começou a publicar contos no Gray’s Sporting Journal, no final dos anos setenta, e em 1988 publicou a sua primeira colectânea de contos, Heartsongs and Other Stories (não editado em Portugal). Em 1992 publicou o primeiro romance, Postcards, também não disponível em edição portuguesa. A pesquisa que Proulx realizou para a escrita desse livro no estado do Wyoming esteve na origem da sua decisão de aí se fixar. The Shipping News saiu em 1993, e valeu o Prémio Pulitzer. O Segredo de Brokeback Mountain, cuja adaptação ao cinema por Ang Lee (2005) mereceu três Óscares e quatro Globos de Ouro, insere-se na colectânea de contos Terreno Vedado (Close Range – Wyoming Stories no original, datado de 2000).

Os Crimes do Acordeão surgiram em 1996, e ainda em 2002 That Old Ace in the Hole. Annie Proulx gosta de escrever sobre o que não conhece, divertindo-se com a pesquisa que faz antes de escrever cada livro.

 

Terra Nova

Foto retirada do site do Lamont-Doherty Earth Observatory www.ldeo.columbia.edu/

Visita-se a Terra Nova sobretudo pela beleza natural – existe uma grande diversidade de parques naturais onde se observam aves, baleias e icebergues. Esta ilha canadense foi por um breve período por volta do ano 1000 DC colonizada por Vikings – L’Anse aux Meadows (Património Mundial da UNESCO) é reconhecido como o lugar provável da histórica Vinland. Há especulações sobre a descoberta da Terra Nova por navegadores portugueses em 1500, sendo desde essa época, nestas águas, pescado o nosso bacalhau.

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2007)

 

 

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