Ler por aí… em Uppsala e Estocolmo, na Suécia

“Apresento-me: sou um pequeno animal que acabou de fazer uma longa viagem. Apareci aqui nesta cidade de Estocolmo acabado de chegar duma terra ainda mais ao Norte. Vim de Uppsala. Cheguei dentro dum cesto de vime transportado aos ombros do meu dono, alfaiate e tecelão, o senhor  Elvis, que me trouxe com ele. Com ele veio também a sua mulher Agnetta, porque ele, depois de ter pensado muito bem na sua vida, chegou à conclusão de que não seria capaz de viver sem nós, sem mim e sem ela, o que eu, pequeno animal, achei muito provável e natural.”

Os animais têm faculdades ainda inexplicáveis pela racionalidade. Os gatos, em particular, são seres misteriosos, que desde os tempos mais antigos estão associados a superstições e rituais sagrados. Este gato percebeu (na falta de melhor palavra) que os donos não podiam embarcar no grande navio Vasa. Não se sabe com que sentido o percebeu. Mas conseguiu salvá-los do naufrágio.

Hoje o Vasa está num museu, em Estocolmo. Mas em 1628, estava no porto, de onde partia para a sua viagem inaugural. Devido a qualquer erro de cálculo nas proporções, o navio tombou à primeira rajada de vento, e afundou. Felizmente que o gato e os seus donos não chegaram a tempo de entrar.

Elvis nasceu em Kiruna, a cidade mais a Norte da Suécia e em risco de subsidência geológica (um naufrágio em terra…). Agnetta, como o gato, é de Uppsala, uma cidade que na idade média foi transferida de Gamla Uppsala, um importante centro de ritual pagão até à chegada do cristianismo.

De Kiruna para Uppsala (são cerca de mil e cem quilómetros), Elvis viajou só, mas de Uppsala para Estocolmo, prosseguiu na companhia de Agnetta e do gato. A viagem, na luz da Primavera, atravessa florestas, cruza ribeiros e contorna lagos. São setenta quilómetros, que Elvis e Agnetta, mais o gato, fizeram em cinco dias. A eles juntou-se, logo no primeiro dia, um grupo de Farun, a cidade do cobre. Como Elvis e Agnetta, também iam a caminho de Estocolmo para ver sair o Vasa.

O Vasa saiu do velho porto de Estocolmo, onde se situariam os estaleiros de Skeppsgården, no actual bairro de Blasieholmen. Mesmo em frente seria o castelo Tre Kronor, o das três coroas, onde está actualmente o Palácio Real. Estava previsto o Vasa passar mesmo em frente ao castelo.

O Vasa não navegou duas milhas, naufragou e permaneceu no fundo do porto de Estocolmo, mais de três séculos.

Quando o Vasa foi recuperado do fundo do mar, foi encontrado o esqueleto de um gato. Mas este seria um gato com dificuldades de percepção, pois não detectou o perigo como o nosso herói.

 

 

Cristina Carvalho

Foto retirada do blog O Gato de Uppsala https://gatoduppsala.wordpress.com/acerca-da-autora-cristina-carvalho/

Cristina Carvalho nasceu em 1949, filha do poeta António Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho) e da escritora Natália Nunes.

Para além d’O Gato de Uppsala, tem publicados mais oito livros: Até Já Não É Adeus (1989), Momentos Misericordiosos (1992), Ana de Londres (1996), Estranhos Casos de Amor (2003), Nocturno: o Romance de Chopin (2009), Tarde Fantástica (2011), A Casa das Auroras (2011) e Lusco-Fusco (2011). Tal como O Gato de Uppsala, também Nocturno: o Romance de Chopin e Lusco-Fusco integram o Plano Nacional de Leitura.

Das viagens que Cristina Carvalho fez pelo Norte da Europa, resultou um encantamento especial pela Suécia.

 

 

A Suécia

Foto retirada do site do Museu do Vasa http://www.vasamuseet.se/pt

Os dias que são noites e as noites que são dias; as auroras boreais: a Suécia parece mágica.

A melhor maneira de viajar de Uppsala para Estocolmo, actualmente, é de comboio. Os 70 quilómetros que Elvis e Agnetta, mais o gato, demoraram cinco dias a atravessar, fazem-se assim em apenas quarenta minutos.

Gamla Stan é a velha Estocolmo. Passear nas suas ruas estreitas é visualizar a cidade a que Elvis e Agnetta, mais o gato, chegaram vindos de Uppsala. O Museu do Vasa não fica muito distante.

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2012)

 

 

 

 

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