Ler por aí… em Quioto, Japão

“Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Dá para ter em mente pequenas metas: primeiro só a esquina. Aquele sinal com a faixa de pedestres e o homem esperando para atravessar com um guarda-chuva transparente e um cachorro de capa amarela.

O cachorro parece um labrador e olha para mim quando me aproximo.

Tem uma cara afável. Somos ocidentais nós dois, amigo.”

Rakushisha é a Cabana dos Caquis Caídos, a cabana que serviu de morada a Kiorai, discípulo de Basho. Basho foi um poeta de haiku, os poemas de três versos japoneses. No século XVII, Basho procurou a realização espiritual em forma de haiku.

Rakushisha fica nos arredores de Quioto, e foi o destino de uma das suas deambulações, durante a qual escreveu a Saga Nikki, um diário de viagem que o artista brasileiro, descendente de japoneses, Haruki, teria de ilustrar.

Foi este diário que uniu Celina e Haruki, e os levou até Quioto. Uma viagem pela viagem, uma viagem à procura de Basho, para Haruki, mas uma viagem de reencontro e reconciliação consigo mesma, uma viagem de reaprendizagem, para Celina.

Celina reaprende a andar, a colocar um pé depois do outro, onde Basho percorria a pé longos percursos de procura espiritual.

Os pés são muito importantes, diz Celina. Celina compra um par de sandálias zori para Alice. Alice teria para sempre sete anos de idade.

Em Quioto, ainda há harmonia no encontro entre o antigo e o moderno: entre as deambulações de Basho e as viagens do trém-bala, entre as cabanas e casas tradicionais, agora totalmente absorvidas pela cidade, e a estação ferroviária do arquitecto Hiroshi Hara. No Japão o tempo tem uma outra dimensão, permitindo a Celina relativizar acontecimentos dolorosos e reaprender a viver. Celina também escreve um diário em Quioto.

Como os haiku que Basho escrevia, na forma renga, uma forma poética colaborativa, em que vários poetas contribuem na construção do poema, o romance Rakushisha é construido a partir dos diários de Basho e Celina, e de impressões de Hiroshi e da sua editora, Yukiko.

Rakushisha pode ser visitada, sendo local de culto para os admiradores do haiku. É um lugar de tranquilidade.

 

 

 

Adriana Lisboa

Foto retirada do site oficial de Adriana Lisboa http://www.adrianalisboa.com/home

Adriana Lisboa nasceu no Rio de Janeiro em 1970, e viveu nesta cidade toda a infância e adolescência. Estudou música, foi flautista e cantora, e também professora de música. Prosseguiu os estudos e fez investigação na área da literatura.

Iniciou a sua carreira como escritora com o romance Os Fios da Memória (1999), seguindo-se Sinfonia em Branco (2001, que ganhou o Prémio José Saramago), Um Beijo de Colombina (2003), a colectânea de contos Caligrafias (2004), Rakushisha (2007), a novela O Coração às Vezes Pára de Bater (2007, com adaptação para cinema) e Azul-Corvo (2010). Na área infanto-juvenil, publicou Língua de Trapos (2005), A Sereia e o Caçador de Borboletas (2009), e Contos Populares Japoneses (2008).

Tem livros publicados em França, Estados Unidos, Itália, México, Suíça e Suécia. Tem contributos em várias antologias, participou em diversos festivais literários e é tradutora de autores como Robert Louis Stevenson e Cormac McCarthy.

Adriana Lisboa foi investigadora convidada em Quioto, e o seu blog pessoal chama-se Caquis Caídos.

 

 

Quioto

Foto de Rakushisha retirada da página Yokoso! Japan http://www.geocities.jp/general_sasaki/kyoto-rakushisha-eng.html

Em Quioto termina o Caminho de Basho, percurso de 1.200 milhas (quase 2.000 kms) relatado pelo poeta no seu O Caminho Estreito para o Longínquo Norte (Fenda, 1995), que o repórter Howard Norman e o fotógrafo Michael Yamashita percorreram para a National Geographic. O Caminho de Basho começa em Edo, o nome antigo de Tóquio.

Quioto era a capital do império nipónico no tempo de Basho, apesar de nessa época, o Período Edo, os shoguns de Edo (Tóquio) serem dominantes. Sendo sempre a capital cultural do Japão, foi poupada aos bombardeamentos aliados Segunda Guerra Mundial, o que lhe permitiu preservar uma grande quantidade de edifícios antigos (classificados pela UNESCO como património da humanidade), e algum carácter. É também o berço da tradicional cozinha japonesa, que tira partido da proximidade do Mar do Japão e do lago Biwa, e se baseia em ingredientes simples e sazonais.

 

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2011)

 

 

 

 

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