Ler por aí… em Pitões das Júnias

“Entro nisto, entramos, e é um eclipse total. Muitas vezes acontece: lemos um livro e não sabemos depois o que fazer com ele. Vamos andando ainda por um trilho. No princípio não invento. Depois, sim. Um dos erros é falar e, no entanto, falamos. Ou um dos erros é escrever. A conversa apaga ou reconstrói a história dos mundos e a memória humana estende o seu império, influenciando a natureza e desejando, em muitos casos, tocar o mistério com os dedos. A ver se consigo explicar-me. Será preciso? Escreverei com o instinto, desta e doutras almas. Pouco sei e apenas com estes erros, e vou andando. O que posso desejar? Uma humanidade melhor. Sabes, entendo-me melhor com o que escrevo. Ah, se o que dizemos à saída dos lábios pudesse acompanhar o que escrevo… Isto tem de ser rápido, rápido como o vôo do milhafre que tantas vezes não é rápido. Esta é mais uma história de amor semelhante a tantas outras, só que mal contada. Não começo por dizer que te amo.”

Cornos da Fonte Fria é um cume nevado na Serra do Gerês, onde se pretende construir o farol – biblioteca. Só por si, esta ideia é estranha e fascinante ao mesmo tempo. Inserida no ambiente húmido e verde dos bosques de carvalhos, torna-se onírica.

Esta é uma história que parece tirada de um sonho, com elementos que aparecem sem percebermos muito bem porquê, e em que no fim ficamos a pensar nele, durante muito tempo perturbados pelas ligações que se fazem sem nós termos previsto, pela incongruência que nos deixa intrigados e ao mesmo tempo nos encanta, e com vontade de voltar a adormecer, até perceber o seu significado.

Há duas realidades que se cruzam, a dos dois rapazes de Pitões das Júnias e a do casal de Lisboa que está de passagem, ele com raízes em Pitões das Júnias, ela não. Há ainda o escritor que viveu embrenhado nas fragas, num abrigo, como um eremita.

Ele fala para ela, ao longo de toda a narrativa. Não têm nomes. Ele quer mostrar-lhe tudo, todos os lugares cheios de significado. Ela preferia não estar ali.

Os dois miúdos, Flores e Raspa-te, anseiam por visitar o farol, como se ele os pudesse levar dali para um outro lugar.

O escritor está morto há muito, e tornou-se uma figura mítica na região, mas na sua casa (no abrigo) deixou, em esconderijos, muitos poemas.

Centrando-se em casas da aldeia, e nos bosques de carvalhos, a acção passa pontualmente pelo Mosteiro de Santa Maria de Júnias, uma ruina granítica na margem de um ribeiro e no fundo de um vale, cujas origens se desvanecem no passado, cheias de mistérios por resolver.

A ruina do Mosteiro é um local muito agradável para ler Cornos da Fonte Fria, se o tempo o permitir. Depois de vencida a descida íngreme, há muros e recantos onde se pode instalar, e ler enquanto escuta o correr do ribeiro e aprecia as cores de Outono do bosque de carvalhos.

Vai ver que há muitos sítios que o livro menciona, e por onde terá passado, ou visto indicação, para aí chegar. Por exemplo, a Casa do Preto, referido no livro como o Café do Preto, alternativa de poiso de leitura caso as condições atmosféricas não permitam uma leitura ao ar livre.

 

 

 

Abel Neves

Foto retirada do perfil do autor no Facebook https://www.facebook.com/profile.php?id=100014520666093

Abel Neves nasceu em Montalegre em 1956, onde viveu a primeira infância. Daí partiu para uma série de moradas, em todo o país (assim obrigaram os cargos públicos ocupados pelo seu pai), até a família se fixar em Gaia e depois em Lisboa.

Frequentou o Liceu Camões e depois a Faculdade de Letras, onde não terminou Filosofia. Preferiu o Teatro, e durante 12 anos exerceu diversas funções no Teatro da Comuna, incluindo a de actor.

No teatro, a sua colaboração com o Teatro da Serra de Montemuro deu-nos, entre outras, a peça Qaribó, que recentemente esteve em cartaz no CCB. Ainda como dramaturgo, venceu em 2009 o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva, com a peça Jardim Suspenso, que esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II.

Escreve desde os 14 anos. No romance, para além de Cornos da Fonte Fria (2007), escreveu Coração Piegas (1996), Asas Para que Vos Quero (1997), Sentimental (1999), Centauros (2000), Precioso (2006) e o recente Lisboa aos Seus Amores (2010). Romancista e dramaturgo, é também poeta e ensaísta.

Pitões das Júnias

Foto de Pita, no site fotopt.pt

Pitões das Júnias é uma aldeia granítica no meio da serra do Barroso, daquelas em que as vacas partilham as ruas com as pessoas. O Mosteiro data do século IX, e terá sido fundado por monges beneditinos. No século XIII passou para a Ordem de Cister, ficando dependente do Mosteiro de Santa Maria do Bouro. Um incêndio destruiu-o quase por completo na sequência dos ataques espanhíos de 1640, e em meados do século XIX, já depois da extinção das ordens religiosas, o seu estado de abandono facilitou acções de vandalismo que terminaram noutro incêndio, que o deixaram na ruína que é hoje. É esta ruína que 1950 é classificada como Monumento Nacional. O Mosteiro é um local de magia, não só pela grandeza da paisagem envolvente, mas também pela beleza das paredes graníticas e por nos transportar para épocas e vidas que podemos apenas vislumbrar.

Pitões das Júnias fica inserido na região do Barroso, e dispõe de um núcleo museológico. O Pólo de Pitões do Eco-Museu do Barroso está dedicado a preservar na nossa memória colectiva o conhecimento e os costumes das populações locais, sobretudo no que diz respeito à agricultura e à transformação caseira do linho e da lã.

A região, parte do Parque Nacional da Peneda Gerês, oferece inúmeras possibilidades de acividades ao ar livre, desde já começando pela caminhada pelas matas de carvalhos e cascatas da região, em que se pode sentir o ambiente que é descrito em Cornos da Fonte Fria.

Embora seja uma tendência recente, começa a ser possível provar a variedade de espécies de cogumelos que a fraga oferece. É importante que sejam escolhidos e manuseados por quem saiba.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2010)

 

 

 

 

 

Gostou desta leitura? Partilhe-a
Partilhe
Partilhe
Partilhe
Partilhe
Subscreva
SHARE

Deixar uma resposta