Ler por aí… no Alto Minho

“O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguem dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez, o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!”

Considerada por muitos a obra-prima de Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães narra o apogeu e a decadência das casas fidalgas. Trata-se de “uma crónica romanceada” como o próprio autor a define, e no prefácio narra as peripécias de sua composição, inclusive respondendo ambígua e jocosamente a um “académico de Argamasilha, ou lente de Coimbra”: “- Um romance… ? Deus me livre!”

A Casa, pertencente ao complexo da Quinta do Amparo, localizada em Paredes de Coura, era (e é) uma quinta brasonada, junto das cumeeiras da serra de Agra, do monte Calvário e dos penhascos de Rubiães. Permanece na vizinhança da Galiza, o que representa a continuidade de “gente de velha cepa” e “sangue retinto de suevo”.

Faz parte do remoto couto de Fraião, cabeça de morgadio vinculado no século XVII, envolvido por uma espécie de muralha feudal, já tão diferente da primitiva construção, realizada por mestres de Azurara e Barcelos.

É a crónica romanceada do velho solar dos Menezes e Montenegros, que foi arrematado na praça pelo conselheiro Miguel Danta, avô da mulher de Aquilino Ribeiro, integrando-se num “grande trato de terras com todos os seus outeiros, arroios, matos e arvoredos livres e aluviais”.

Posteriormente, foi atribuída em herança à esposa em segundas núpcias de Aquilino Ribeiro, D. Jerónima Dantas Machado, e habitada pelo escritor.
Ao mesmo tempo que Aquilino recriou a História e a pequena história de Romarigães, procedeu à reconstrução do edifício degradado pela ação do tempo e pela incúria de sucessivas gerações, remodelando a casa e restaurando a Capela do Amparo.

Uma das singularidades da Casa Grande de Romarigães reside na abundância de água, que “descia dos cerros por muitos regatinhos, brancos, inocentes e tagarelas”. Ainda acerca dessa água, Aquilino recordou do padre Carvalho, no Dicionário Geográfico, que era “a mais delgada e fria do mundo”. Mais ainda: “Tem ali, como em nenhuma parte, um timbre especial, de cismar com os montes e a sombra que projectam na vida interior dos homens.”

Da abundância das águas resultou, nessa “terra que nem unto”, um revestimento florestal exuberante. O fundador já era da opinião – assegurou Aquilino – que “propriedade sem árvores é como uma mulher sem cabeleira”. A Casa Grande de Romarigães ostentava, ainda, uma “facúndia tropical, “a inspiração luxuriosa, tipo indiático dos templos consagrados a deusas que tinham infinitos braços para abraçar voluptuosamente o mundo e infinitas tetas para darem a mamar o leite da paz e conformidades.”

Neste livro podemos contar com passagens que são um verdadeiro festim para os sentidos, não só na mestria e profundo naturalismo com que descreve o ambiente rural e onde se multiplicam “as rolas nas corutas dos pinheiros” e onde as lebres corriam “nas circunvoluções dos outeiros debaixo do céu lavado” como também quando nos depararmos com uma das mais belas descrições de uma floresta… ”Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta.

Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo.”

Captando a essência de uma sociedade patriarcal onde subsiste a ruralidade e o analfabetismo, bem vincada pela religiosidade, pela linguagem popular, pelas crendices e superstições, esta Casa Grande de Romarigães serve de cenário para amores, temores, paixões e loucuras, protagonizados por uma família de fidalgos.

Tânia Carvalho da Silva
© Ler por aí… (2013)

 

Aquilino Ribeiro

Foto retirada da página da Escola Secundária José Estêvão na plataformaProf2000 http://www.prof2000.pt/users/secjeste/secje10/Pg000810.htm

Aquilino Ribeiro nasceu em Sernancelhe em 1885. Depois de frequentar o Liceu de Lamego, passou pelo Seminário de Beja mas não terminou os estudos de Teologia por falta de vocação. Fez carreira de jornalista, no Diário de Lisboa, nO Século, e outros. Fundador com outros intelectuais da revista Seara Nova, também foi professor e conservador da Biblioteca Nacional.

Foi republicano, revolucionário, conspirador, e esteve preso e exilado. O seu último romance, Quando os Lobos Uivam (1958), foi apreendido pela censura do Estado Novo. Da sua produção literária, destacam-se também Terras do Demo (1919), Andam Faunos pelos Bosques (1926), O Malhadinhas (1922, inserido no volume Estrada de Santiago, e 1949, em edição autónoma) e o Romance da Raposa (1924), história infantil com várias camadas de leitura.

O segundo casamento, com Jerónima Dantas Machado, trouxe Aquilino à casa de Romarigães, cuja história investigou e que deu origem à obra, publicada pela primeira vez em 1957, ano em que foi eleito o primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Aquilino Ribeiro veio a morrer no seguimento de um repentino problema de saúde, durante a homenagem que lhe era dirigida pela Sociedade Portuguesa de Escritores. A Casa Grande, encerrada ao público e hoje num estado de degradação avançado, não pode falar da sua obra e da sua personalidade.

 

Alto Minho

Foto retirada do site Maravilhas do Alto Minho http://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/of6015a43/5934740_Vu2Pc.jpeg

Passear pelo Alto Minho e reconhecer a toponímia referida na obra – Calheiros, Rubiães, Bouro… – foi uma das experiências que inspiraram a criação do projecto Ler por aí…

A casa de Romarigães insere-se num território dominado pelo barroco das construções senhoriais do Alto Minho. A história desta casa, sendo única, é semelhante às histórias de outras casas grandes da região, e cruza-se com estas. Muitas destas casas estão abertas a visitantes, como o Paço de Calheiros e o Palácio da Brejoeira.

Não é o caso da Casa Grande de Romarigães. Porque não pode ser visitada, porque se encontra actualmente num estado de degradação avançado e porque não se conhecem planos para a intervenção neste edifício que é classificado como de interesse público, corremos o risco de perder um capital cultural que é de todos nós, e que poderá não ser possível reaver.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2013)

 

 

 

 

Gostou desta leitura? Partilhe-a
Partilhe
Partilhe
Partilhe
Partilhe
Subscreva
SHARE

Deixar uma resposta