Ler por aí… na Lisboa do Terramoto

 

“Senhor Ministro, Excelência,
Apenas a minha vontade de em tudo vos agradar, nunca esquecendo a temporada, aliás desafortunadamente curta, que juntos vivemos na minha querida cidade natal de Veneza, e o favor e mercês com que me haveis acolhido em Paris, nos primeiros meses deste ano, me poderia levar a pegar na pena para vos descrever as peripécias que levaram à minha inesperada viagem a esta desgraçada cidade de Lisboa, varrida por um atroz terramoto há cerca de dois anos. Asseguro-vos, Excelência, que, por muitos desconcertos da Natureza que me tenha sido dado ver, ou que ainda verei, nenhum me parece de mais incompreensível extensão ou gravidade. De tal forma que, não fosse não acreditar nas obscuras justificações derivadas da vontade divina – que, a manifestar-se assim, seria de maior malevolência que os castigos de Sodoma e Gomorra -, seria tentado a admitir que apenas os muitos pecados e desmandos de um povo podem explicar a desgraça que sobre o seu destino se abateu. Aliás, os jesuítas e o povo miúdo acreditam nesta explicação e, ignorantes das causas naturais que a recta ratio é capaz de identificar, espalham aos quatro ventos a notícia de outras calamidades que a persistência do governo temível do ministro do rei, Sebastião de Carvalho, não deixará de provocar.”

 

Cartas de Casanova – Lisboa 1757

Casanova seduzia, seduzia e seduzia. Mas Giacomo Casanova foi uma figura muito mais ampla e interessante, e é aqui retratada nos seus diversos cambiantes. O livro é composto de seis cartas imaginadas pelo autor, Autónio Mega Ferreira. São seis cartas imaginadas, mas que poderiam (ou não) ter sido escritas por Casanova, pois baseiam-se em factos relatados pelo próprio na sua Histoire de ma vie – apesar de, afirma o próprio Mega Ferreira, não se saber,

“(…) sequer se Casanova alguma vez esteve em Lisboa, pelo que pode nem as ter escrito. É esse o princípio da ficção.”

Posto isto, é importante fazer referência ao rigor com que António Mega Ferreira manuseia estes factos, e os enquadra ao pormenor no tempo e no espaço. Lisboa pós-terramoto de 1755 é aqui coloridamente retratada, a partir de pesquisas aprofundadas e bem documentadas que o autor realizou para escrever estas cartas.

Estas seis cartas, longas como já não se escrevem, contam episódios da vida pública e privada da cidade, através do olhar de um estrangeiro, por sinal, um espírito livre, inteligente, culto e muito vivido. De resto, Casanova terá acabado por ser expulso do país, acusado de espionagem a mando de França. Ficcionada mas plausível, a estadia de Casanova em Lisboa não se pautou pela harmonia. Irreverente, Casanova entraria em choque com a mentalidade vigente, católica, moralista e supersticiosa, ao chamar a atenção pela sua atitude perante os prazeres da vida, e por defender abertamente as causas naturais do terramoto, recusando a tese do jesuita Malagrida.

Casanova percorre a cidade arrasada, e nas descrições reconhecemos lugares em que Lisboa foi o que já não é, mas que ainda é. Ajuda e Belém, improvisado centro político, com a real barraca lá em cima e as várias dependências desenvolvendo-se encosta abaixo; no Terreiro do Paço, as ruínas do paço real e da Ópera do Tejo, recém-inaugurada; a nova Patriarcal, erigida provisoriamente em madeira no alto da Cotovia (actual Príncipe Real); o Corpo Santo, São Bento, Buenos Aires (actual Lapa), o vale de Alcântara… E já fora da cidade, Sintra (o Ramalhão), o festivo convento de Odivelas, Alcochete.

Durante a verosímil estadia em Lisboa, Mega Ferreira põe Casanova a conviver com personalidades relevantes da Lisboa da época: participa num sarau da academia de letras Arcádia, a convite do poeta Correia Garção; discute com Jácome Ratton, o industrial francês, a reabilitação da Real Fábrica das Sedas e da plantação de amoreiras; acompanha musicalmente o violinista alemão Henrique Felner; e é recebido pelo ministro Sebastião de Carvalho, no seu gabinete improvisado que se situaria no Pátio do Bonfim, ou Pátio da Secretaria, na Ajuda. Terá sido nesse lugar que Sebastião de Carvalho estudou os planos de reconstrução da cidade. Terá sido ali, também, que Casanova apresentaria a sua proposta de criação de uma Lotaria Real, como expediente para a provisão dos cofres reais, tão necessitados no seguimento do terramoto. Bom lugar para ler estas cartas.

 

 

António Mega Ferreira

António Mega Ferreira – foto retirada da página do autor na Infopédia, https://www.infopedia.pt/$antonio-mega-ferreira

António Mega Ferreira nasceu em Lisboa em 1949, a sua formação foi em Direito e em Comunicação Social. Trabalhou na redacção de vários jornais, incluindo o Expresso, e colaborou como colunista de outros tantos, dos quais queremos destacar O Independente e a Egoista. Foi director de informação da RTP 2, chefe de redacção do Jornal de Letras, director editorial do Círculo de Leitores, e criou as revistas Ler e Oceanos. Liderou a candidatura de Lisboa à Expo 98, que comissariou, o que lhe mereceu a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Foi Presidente do Centro Cultural de Belém entre 2006 e 2012. Faz parte da Direcção da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Tem cerca de 30 livros publicados. O primeiro, Graça Morais, Linhas de Terra, de 1985, é uma monografia publicada pela INCM, em edição limitada, de 250 exemplares numerados e assinados pelos dois autores. A Expressão dos Afectos, de 2001 (Assírio & Alvim), obteve o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco. Cartas de Casanova foi publicado em 2013 pela Sextante.

 

 

Lisboa e o Terrramoto

Ruínas da Ópera do Tejo, retratadas por Jacques Philippe Le Bas em 1757. Imagem retirada da Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Ópera_do_Tejo

Sob a cidade que pisamos, está uma história contada em camadas. Ao percorrermos as ruas de Lisboa, se estivermos de olhos abertos, vemos as ruas actuais, e se fecharmos os olhos, vemos as ruas antigas, anteriores ao Terramoto, que estão soterradas lá por baixo. De tempos a tempos, estas ruas antigas Vêm ter connosco: escavações arqueológicas revelam mais uma peça, de uma das camadas desta história: uma escadaria, um tanque, um conjunto de ossos, artefactos náuticos e religiosos, dinheiro antigo. Contam a história desse desastre que aterrorizou a Europa, e que a pôs a pensar.

 

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2017)

 

 

 

 

 

 

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