Ler por aí… na Graça, Lisboa

“Júlia fazia anos no dia de Santo António.
Nada a cativava em qualquer religião conhecida, mas gostava de fazer anos naquele dia. Os lisboetas sempre se envolveram na lenda de Santo António, mesmo sem lhe serem devotos. É um caso de cumplicidade, entre cidadãos.

Nos meses que rodearam esse Junho, em que Júlia nasceu, vieram ao mundo muitas outras crianças. Como sempre.
A maioria foi esquecida.
Muitos, porque mal chegaram a viver. Era assim naquele tempo.
Outros, por pobreza. É costume os pobres deixarem apenas tracejados de memória.
Outros ainda porque, embora ricos, não conseguiram importância.

Porém, alguns ficaram lembrados.”

Júlia foi uma mulher da primeira república. Não somos informados de onde nasceu, apenas que foi em Lisboa. Reconhecemos, nascidos no mesmo ano que Júlia (que pertenceu à maioria que foi esquecida), quatro figuras que ficaram lembradas: D. Manuel II, António de Oliveira Salazar, o Cardeal Cerejeira, e Fernando Pessoa. Ao longo da narrativa, vão-nos sendo dadas notas do percurso destas figuras, sempre que o de Júlia neles tropeça.

Localizamos a Escola-Oficina nº1, do Largo da Graça, em que Júlia estudou e onde se inspirou para criar a Oficina das Aprendizas (no dia em que começou a receber rapazes, passou a chamar-se Oficina de Aprendizes), onde se combatia a miséria ensinando um ofício. Esta Oficina, a Oficina, situar-se-ia no Beco do Grilo, numas antigas cocheiras cedidas pelo Centro de Estudos Sociais do Beato. Se este Centro existiu de facto, à Oficina não encontrámos qualquer referência.

O jornal O Século, onde Júlia e Pedro se conheceram, ficava no Bairro Alto, na Rua do Século que na época era a Rua Formosa. Júlia era Madame Carvalho na Página das Leitoras. A casa que Júlia e Pedro habitaram enquanto casal ficava num prédio na Alameda do Beato. A mãe de Pedro habitava um chalé na Cruz Quebrada, desde que fechara um velho casarão na Rua da Horta Seca, onde Júlia encontrou dois espelhos, e outras curiosidades que não aproveitou, âncoras no modelo social do passado.

Época de ruptura, a de Júlia. Recebemos, no livro, as notícias de dois assassinatos, o do rei D. Carlos, e o do presidente Sidónio Pais. A ruptura com os modelos político-sociais do passado foi necessariamente acompanhada por uma procura de um novo modelo para o futuro. As mulheres, a quem estava dificultada a acção na vertente pública da sociedade, tiveram um papel nesta procura por um novo modelo. Júlia foi uma dessas mulheres, uma mulher ficcionada por Filomena Marona Beja, uma síntese das numerosas mulheres reais que representa. Para que as mulheres de hoje tenham capacidade de intervenção e sejam consideradas cidadãs, tal como os homens, as júlias do início do século XX indignaram-se e resistiram.

 

 

 Filomena Marona Beja

Foto de André Beja retirado do Flickr https://www.flickr.com/photos/metrografismos/2556605326

Filomena Marona Beja nasceu em Lisboa, a 9 de Junho de 1944. Frequentou o Liceu Francês e licenciou-se em Biologia pela Faculdade de Ciências de Lisboa. Trabalhou em documentação técnico-científica, nos Ministérios das Obras Públicas e da Educação, e As Cidadãs (1998) foi o seu romance de estreia.

Para além deste, Filomena publicou também os romances A Duração dos Crepúsculos (em 2006), A Sopa (em 2004), Betânia (em 2000), A Cova do Lagarto (2007), que recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB, e Bute Daí, Zé (2010), e em 2011 a colectânea de contos Histórias Vindas a Conto.

Participa na Leitura Furiosa desde a primeira edição.

Largo da Graça

Foto retirada do blog Cidadania LX http://cidadanialx.blogspot.pt/2008/07/nas-mos-da-reunio-de-cml-de-hoje.html

O espaço do Largo da Graça esteve fora de portas até à construção da muralha fernandina, e só foi definitivamente urbanizado no século XIX. Na encosta voltada para o castelo, terá assentado arraiais D. Afonso Henriques. A partir do miradouro, tem-se uma vista para o castelo que será a que o nosso rei terá tido durante o cerco. O convento da Graça, agostiniano, data dessa época, embora tenha sido reconstruido após o terramoto de 1755.

Fica no Largo da Graça o famoso Botequim fundado por Natália Correia, que hoje funciona como bar e espaço cultural. O botequim está inserido no edifício da Vila Souza, conjunto habitacional de origem operária, que nos transporta para o tempo de Júlia e d’As Cidadãs.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2012)

 

 

 

 

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