Ler por aí… no Douro

“A margem esquerda dos rios não apetece tanto, seja porque o sol a procura em horas mais solitárias, seja porque a povoa gente mais tristonha e descendente de homiziados e descontentes do mundo e das suas leis. A região demarcada do Douro, que ocupa quase na sua totalidade a margem direita, prova pelo menos que o reflexo solar tem efeito no negócio dos homens e lhes determina a morada.”

Ema vivia no Romesal, em criança. Com o casamento, mudou-se para Vale Abraão. E frequentemente visitava o Vesúvio. Estes são três lugares fundamentais deste romance de Agustina, todos eles situados na região do Douro, algures entre Lamego e a Régua, na margem Sul do rio. Esta margem é estupendamente retratada logo no início da obra.
O Romesal, centrando a parte inicial do livro, é uma casa de lavrador vinhateiro, que tem a particularidade de possuir uma varanda voltada para a estrada. A fatalidade associada a esta varanda é uma antecipação do que será a evolução da história e da personagem.
Vale Abraão, a casa de casada de Ema, é uma casa também de lavoura vinhateira, embora mais abastada e testemunho de várias gerações. Da sua janela no Romesal, Ema via Vale Abraão, mas a realidade vista de perto é bem menos interessante do que aquela prometida pela miragem.
Já no Vesúvio, casa senhorial junto ao Douro, Ema refugiava-se da sua vida monótona em Vale Abraão, encarnando a Bovarinha. Esta propriedade é apresentada no final do segundo capítulo, e situava-se numa escarpa tenebrosa na margem do rio. Ema apreciava passear-se solitária pelo cais junto à margem do rio, denotando uma certa dose de loucura, premonitória do final dramático da história.
Existe um quarto lugar que importa mencionar, a Casa das Jacas. Este é o lugar em que se dá o ponto de viragem da história, em que Ema se apercebe que há outro mundo, diferente daquele que ela conhecera até então, e bem mais esplendoroso. A Casa das Jacas é também esplendorosa.
Outros locais são referidos ao longo da acção. Um deles é a cidade de Lamego, por nela ter lugar um dos momentos incontornáveis da história, logo no primeiro capítulo. Tendo este facto em conta, poderá ser uma boa ideia sentarmo-nos num dos bancos do jardim da praça central de Lamego, ou numa das suas esplanadas – quem sabe se não teria sido naquela mesma que tudo se passou? – para calmamente ler este capítulo.
Mas ao longo do romance assistimos à decadência física e moral de Ema, e das diferentes casas. A prosperidade e nobreza passadas da região, que no início da história ainda se adivinham, são gradualmente substituídas pela degradação e abandono, surgindo referências às recentes casas de emigrantes.
Este é um livro que, de resto, se deve ler com calma, no sossego, num remansoso sossego. Assim, um sítio de eleição poderá ser o alpendre, a sala de estar ou a reentrância da janela de uma das muitas casas de turismo rural da região. É interessante visitar a Quinta do Vesúvio, pois existe realmente e produz vinho. A própria obra faz referência à proprietária original, a que chama a Senhora, e que foi na realidade D. Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, grande senhora do Douro do século XIX, que aqui gostava de receber visitas.
Vale Abraão conta a história de Ema, personagem de Flaubert, transferida da Normandia do século XIX para o Douro do século XX. Foi escrito com o objectivo de servir de guião para o filme com o mesmo nome realizado por Manoel de Oliveira em 1993.

 

Agustina

Foto retirada do site da Guimarães Editores http://www.babel.pt

Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila Meã, no concelho de Amarante, em 1922, e foi neste lugar que viveu a infância. Mais tarde, fixa-se na cidade do Porto.

A novela Mundo Fechado, o seu primeiro livro, foi publicado em 1948, mas só em 1954, com A Sibila, é que é reconhecida como um grande nome da literatura portuguesa do século XX. A sua obra é muito extensa, e compreende uma grande diversidade de géneros: romance, novela, conto, ensaio, teatro, biografia, diário, infantil e crónica.

Foi directora do jornal diário O Primeiro de Janeiro, entre 1986 e 1987, e do Teatro Nacional D. Maria II, entre 1990 e 1993, tendo neste período sido também membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.

Entre outros prémios, recebeu em 1980 a Ordem de Santiago da Espada, e em 2004 o Prémio Camões. O seu mais recente livro, publicado em 2005, é Doidos e Amantes.

 

O Douro

Imagem retirada do site do Museu do Douro http://www.museudodouro.pt

O vale do Douro começa na fronteira com Espanha, em Barca d´Alva, e termina em Barqueiros, ao longo de cerca de 100 kms (medidos pela linha do combóio). A paisagem de vinha em socalco, Património da Humanidade da UNESCO desde 2001, continua a provocar admiração. Nas cidades – Lamego, Peso da Régua, Vila Nova de Foz Côa e Vila Real – nas aldeias históricas ou nas quintas, há muitas coisas para fazer, desde passeios de barco ou combóio, a vindimas, passando por provas de vinhos, descoberta de sítios arqueológicos ou simplesmente deixar-se estar no conforto e na mordomia das casas de turismo rural.

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2006)

 

 

 

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