Ler por aí… do Cairo a Cape Town

“All news out of Africa is bad. It made me want to go there, though not for the horror, the hot spots, the massacre-and-earthquake stories you read in the newspaper; I wanted the pleasure of being in Africa again. Feeling that the place was so large it contained many untold tales and some hope and comedy and sweetness, too – feeling that there was more to Africa than misery and terror – I aimed to reinsert myself in the bundu, as we used to call the bush, and to wander the antique hinterland. There I had lived and worked, happily, almost forty years ago, in the heart of the greenest continent.”

(Tradução livre:)

“Todas as notícias vindas de África são más. Isto deu-me vontade de lá ir, não pelo horror, pelos lugares de guerra, pelas histórias de massacres e terramotos que lemos nos jornais; quis o prazer de estar em África outra vez. Sentindo que o lugar é tão grande que contém muitas histórias por contar, bem como alguma esperança e comédia e doçura – sentindo que há mais em África para além da miséria e do terror – desejava voltar a embrenhar-me no bundu, como costumávamos chamar à savana, e vaguear pelo antigo território. Ali eu tinha vivido e trabalhado, feliz. quase quarenta anos, no coração do mais verde dos continentes.”

– Conheço o Brasil, os Estados Unidos, a França e a Inglaterra (e a Espanha, claro), a Tailândia, as Filipinas e África. – Quem nunca ouviu uma frase semelhante a esta?

– África não é um país – respondo sempre. – São mais de 50, mais dúvida menos dúvida. E – acrescento –  esses países são diferentes uns dos outros, muito diferentes, tanto como o Brasil dos EUA, por exemplo. África não é um país, são muitos.

Paul Theroux, no fantástico “Dark Star Safari”, conta-nos uma viagem que fez por terra (com a excepção da primeira etapa, Egipto – Sudão, de avião) – e em meios de transporte “locais” – entre o Cairo e Cape Town. Visitou 10 desses países – Egipto, Sudão, Etiópia, Quénia, Uganda, Tânzania, Malawi, Moçambique, Zimbabwe,  e África do Sul. Quase todos anglófonos, e quase todos na África do Leste.

Quando Paul Theroux nos fala de um lugar fala-nos da sua história, dos seus escritores, da sua cultura; tem uma arte especial para “encontrar” pessoas – um dos ingredientes essenciais da literatura de viagens. Ao longo do livro, relata-nos os seus encontros com escritores do Egipto ou da África do Sul, com um Ministro do Zimbabwé ou o Primeiro-ministro do Uganda, que foi seu colega nos anos 60; mas também fala com camionistas, ajudantes de camionista, lojistas indianos, economistas, intelectuais, militares, simples colegas de viagem nos meios de transporte que utiliza – e deles consegue extrair uma frase, ou fazer uma descrição, que nos ajudam a compreender não só o país mas a pessoa. E, outro ingrediente importante, fala dele, também – nada mais irritante do que esses livros de viagem em que o autor parece que não existe, para além da fome, do frio ou das provações por que passou.

Este livro tem, contudo, um aspecto que lhe dá um interesse especial: é que P. T. viveu no Uganda no princípio da independência do país, e viajou bastante pelos países limítrofes. E é por esse óculo que ele observa os países que atravessa. “A economia está a melhorar”, diz-lhe a certa altura um economista, “- está a regressar aonde estava nos anos 70”.

É aqui, parece-me, que reside o grande interesse do livro. Podemos concordar ou não com muitas das opções que o autor apresenta, ou com as análises que faz. Mas é impossível não ver que ele compara uma África que conheceu (e amou, o que não é despiciendo) com a que vê hoje.

Porque se deve levar este livro numa viagem a um (ou vários) países africanos? Por três razões principais: é instrutivo – dá-nos uma visão muito diferente daquela que temos pelos media e pelo zeitgeist; ajuda-nos a ver o que têm em comum (e de diferente) os países africanos; e, last but not least, porque falando de 10 países do leste africano, nos fala de um continente inteiro, e de nós.

 

 

Paul Theroux

Foto retirada do site Travel Happy http://travelhappy.info

Paul Theroux nasceu em 1941 numa pequena cidade do Massachussets, de uma família católica, a mãe italiana e o pai franco-canadiano. Após uma curta passagem pela University of Maine, onde escrevia manifestos contra a guerra do Vietname, estudou e graduou-se em Língua Inglesa na University of Massachusetts Amherst, tendo aí frequentado um curso de escrita criativa com o poeta Joseph Langland. Ao serviço da Peace Corps, esteve como leitor na Universidade de Urbino, em Itália e depois como docente na Soche Hill College, no Malawi, acabando por ser expulso daquela organização e daquele país por aí apoiar uma tentativa de golpe de estado.

Theroux mudou-se então para o Uganda, onde ensinou na Makerere University, e onde conheceu duas pessoas que foram importantes na sua vida: Anne Castle, que viria a ser a sua primeira mulher, e o escritor V. S. Naipaul (prémio Nobel da literatura de 2001), que seria seu mentor e amigo durante três décadas. Foi nesta época que escreveu Waldo, o seu primeiro romance.

Em 1968, Theroux muda-se com a família para Singapura, e depois, por volta de 1973, para Inglaterra, onde passa a dedicar-se à escrita em exclusividade. A sua obra mais conhecida é A Costa do Mosquito (1981), das poucas obras de Theroux editadas em Portugal, que foi passado a filme por Peter Weir em 1986. No entanto, a sua obra mais polémica será Sir Vidia’s Shadow (1998), uma biografia de Naipaul, em que Theroux faz o relato (verídico ou ficcionado?) do fim da longa amizade. Paul Theroux  inicia-se na literatura de viagens em 1975, com The Great Railway Bazaar. Dark Star Safari sai em 2002.

Actualmente, vive com a sua segunda mulher, entre Cape Cod, no Massachussets, e o Hawaii, onde cria abelhas e produz mel.

 

 

Entre o Cairo e Cape Town

Foto retirada do site do Sunset Beach Guesthouse http://www.sunsetbeach.co.za

Não conheço o Cairo, e do que conheço o Egipto (Port Said) não me lembro de nenhum lugar interessante.  Ele esteve na Beira, de passagem – mas a Beira é uma cidade feia com dois ou três prédios fabulosamente bons; também esteve em Nairobi, cidade que ocupa provavelmente o topo das minhas cidades-odiadas; esteve em Great Zimbabwe, que é um sítio mágico e lindo, mas onde não se fica tempo suficiente para ler este livro; passou por Maputo, cidade linda, que eu adoro e onde se poderia ler isto, na piscina do Hotel Polana, e esteve em Mala-Mala, que não é bem deste planeta, é um bocadinho de paraíso de um outro planeta qualquer, e não serve, portanto, para ler um livro sobre esta terra, e muito menos sobre África. Resumindo: o sítio que me parece melhor de todos é Cape Town, porque Cape Town é uma das cidades mais bonitas do mundo, e é o único lugar, parece-me, onde se pode estar em África e não ter vontade de chorar (se bem que a África do Sul, que não foi África durante muito tempo, o esteja a ser cada vez mais, e isso não são boas notícias). Por mim, se pudesse, ia agora para lá, já, com o Dark Star debaixo do braço e a memória limpa, a zeros.

 

 

Luís Serpa (http://donvivo.blogspot.com)
© Ler por aí… (2007)

 

 

 

 

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