Ler por aí… no Barroso

“Sobre a montada, subindo, devagar, a trilha pedregosa, Leonardo esmoía íntimas irritações. Não podia ser! Os galegos estragavam tudo, quer pagando quantos direitos os guardas fiscais lhes exigiam, quer andando, na calada da noite, a fazer contrabando de peles. Ainda se aparecessem muitas de texugo e de tourão, em que os ganhos pingavam mais, sempre se poderia ir vivendo. Mas não. O gardunho tornara-se bicho raro e também não se matava todos os dias um texugo. E que se matasse! Já se sabia que os galegos pagavam mais – e pele esticada e seca ficava guardadinha para eles. Se nem as de raposa escapavam! Levavam tudo! Desdenhadas, só as de cabrito e de vitela, tão baratuchas que um homem fartava-se de carregar com elas para poder ganhar uns tristes vinténs…”

O casebre de Leonardo e Ermelinda era em Padornelos, junto a Montalegre. Era também nessa aldeia a casa de Santiago, a primeira casa de emigrante a surgir por ali.

Ferreira de Castro consegue fazer-nos sentir que a terra ali é mesmo fria e húmida, sem conforto, que se vive pobremente, longe da civilização e perto da natureza e dos animais – sobretudo junto dos animais. Ainda se podem observar aldeias como esta na região, em que as vacas e os bois se passeiam pelas ruas e as plantam de bosta. Uma chega de bois era ali um raro divertimento a que acudia todo o povo da aldeia e das aldeias vizinhas.

As Serras do Larouco e do Barroso esmagam-nos com a sua imponência e o homem reduz-se à sua dimensão mais pequena. No entanto, a ambição faz parte da natureza humana, e eventos exteriores podem despertá-la. É por isso que a malha de Terra Fria extravasa a povoação de Padornelos.

Na Cumeada do Leiranco, em direcção a Boticas, crê Leonardo que se esconde um tesouro, conforme descrito no Livro de São Cipriano, debaixo de uma pedra em forma de cruz, que fará parte de um dos conjuntos megalíticos existentes na região. Uma vez que são muito numerosos, e grande parte deles está ainda por assinalar, não é fácil identificar o lugar exacto em que Ferreira de Castro se terá inspirado.

Já a Ponte da Misarela, de origem medieval e rodeada por lendas, é bastante conhecida. Fica em Sidrós, onde os rios Cávado e Rabagão se unem. É aqui que as mulheres vêm quando não conseguem levar uma gravidez até ao fim. Se na sua visita à região conhecer algum Gervásio ou alguma Senhorinha, já sabe, são afilhados da ponte.

Para passar para Espanha, e de regresso de Espanha, Leonardo não utilizava a fronteira legal. Em vez disso, percorria as serranias, passando a linha da fronteira junto a Sendim ou a Padroso. Baltar é uma povoação junto à fronteira, que Ferreira de Castro faz questão de comparar com Padornelos, servindo-se dela como um contraponto civilizacional. Em Baltar as pessoas não vivem com os animais, as pessoas são alegres e as mulheres são atraentes. Em Baltar, terá Leonardo a sua recompensa pelas dificuldades sofridas em Padornelos.

Visitar a região em pleno Inverno poderá ser menos agradável do que na Primavera, mas torna possível sentir como é fria esta terra. Hoje já há acolhedoras casas de turismo rural, inclusivamente na própria povoação de Padornelos. Pegue no livro ao serão e sente-se junto à lareira. Na manhã seguinte percorra a povoação de livro debaixo do braço. Não se esqueça de procurar a casa do Capitão, parece que foi onde Ferreira de Castro escreveu Terra Fria. E a seguir, a pé ou de qualquer outro transporte, vagueie pelas serras e repare na erva tenra das lameiras, e nas vacas barrosãs a pastar. Ao almoço poderá verificar o que a erva tenra das lameiras faz à carninha das vacas…

 

Ferreira de Castro

Foto retirada do blog Leitura Partilhada http://leiturapartilhada.blogspot.pt

José Maria Ferreira de Castro nasceu em 1898 no concelho de Oliveira de Azeméis. Os únicos estudos que possuía eram os da escola primária. Emigrou para o Brasil aos doze anos, onde trabalhou inicialmente na Amazónia, num seringal (plantação de borracha). Aqui pôde tomar contacto com a realidade da exploração do homem pelo homem, e sentiu-a na própria pele. O primeiro romance foi aqui escrito, e publicado em 1916, quando tinha 18 anos. Iniciou na mesma época uma carreira jornalística em Belém do Pará, que iria continuar quando regressou a Portugal, em 1919, e que passou pela colaboração com diversos jornais e pela fundação de duas publicações.

Seguiram-se diversas obras até à publicação de Emigrantes, em 1928, e de A Selva em 1930. Terra Fria foi publicado inicialmente em folhetim no jornal O Século, em 1993, e em livro em 1934, tendo recebido o prémio Ricardo Malheiros. Nesse ano, Ferreira de Castro abandonou o jornalismo, devido à dificuldade que tinha em conviver com a censura.

Em 1951 foi proposto para Prémio Nobel da Literatura, e voltou a ser proposto em 1968. Em 1973 a UNESCO anunciou que A Selva estava entre os dez romances mais lidos em todo o mundo. Em 2002 este romance foi adaptado ao cinema por Leonel Vieira, surgindo no cast nomes como Ruy de Carvalho e os brasileiros Gracindo Júnior e Maitê Proença.

Recebeu diversos prémios e homenagens, sendo considerado um dos percursores do neo-realismo, e um dos escritores mais traduzidos em todo o mundo. Faleceu no Porto em 1974.

Nunca usou uma máquina de escrever.

 

O Barroso

Foto retirada do blog Gralhas Terra Barrosã

A região do Barroso abrange os concelhos de Montalegre e Boticas, junto à fronteira com a Galiza. Caracteriza-se pela paisagem montanhosa e pelo contraste entre os cumes rochosos e os planaltos rematados pelas férteis lameiras.

O isolamento a que esteve sujeito durante séculos permitiu manter intactos os costumes do povo, nomeadamente o modo de viver comunitário. As chegas de bois são também um costume ancestral, baseado no comunitarismo – cada povoação tem o seu boi, que pertence a todos e é guardado num sistema rotativo. Também o forno é comunitário, e Padornelos tem um, magnífico, todo em granito.

A Serra do Larouco, a segunda mais elevada do país, é hoje um dos locais mais utilizados em Portugal para a prática de asa delta e parapente. A escalada é outra das actividades que se propiciam nesta região, bem como os passeios de BTT, a cavalo ou pedestres.

 

Margarida Branco
© Ler por aí… (2007)

 

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