Ler por aí… em Lisboa (Alameda e outros lugares)

“Naquele dia, véspera de São João, visitou as obras do Mercado.
– Não está mal, não senhor… E fica pronto quando?
Seguiu.
Travessas, muralhas. Um largo ajardinado.
Ah, a rua da Corredoura! Os arranjos, o prolongamento até à estação dos combóios.
Bom projecto, de início. Outros interesses, e a Câmara fora-lhe retirando importância. Fizera o que ali estava.
– Não vale nada. Nada.”

“Mande-me notícias aqui do engenheiro Pacheco. Sempre teimará em que o Técnico saia da Boavista?
– Ah!… O senhor está a par? Garanto que há-de saír.
A Boavista era uma espelunca. E Duarte tencionava fazer do Técnico uma escola modelar de ensino superior. Boa distribuição do espaço das aulas. Laboratórios instalados em pavilhões amplos, onde tudo se moveria por electricidade. Vidro, ladrilhos, betão.
Sim, haveria de se aplicar betão. Os melhores ladrilhos. E uma qualidade de vidro que só se fabricava na Alemanha.
Sonho.
E não devaneio. Ele próprio começara a redigir o novo programa curricular.
A arquitectura seria de Pardal Monteiro.
Porfírio Pardal Monteiro. Também professor assistente do Técnico. Tinha vinte e oito anos, nessa altura.
– Na minha opinião, Duarte, antes de tomarmos opções quanto ao edifício, temos de ver o que se faz lá fora…
Formado nas Belas Artes de Lisboa, Porfírio já conseguira um Prémio Valmor. E tinha entre mãos o projecto para a estação do Cais do Sodré. Ia das Arts Deco ao Moderno.”

“Em frente, ainda no escuro, principiavam as obras da Fonte Monumental. Desenho da Fonte dos irmãos Rebelo de Andrade. Encomenda feita em 1933.
Celebração da chegada da água à Cidade. Do fim da míngua que durante séculos tinha afligido Lisboa, apesar do aqueduto de Carlos Mardel.”

“O empréstimo da Caixa Geral de Depósitos ao Director do Instituto chegara para expropriar quase metade da freguesia de Arroios.
Urbanizaram-se os terrenos à volta do Instituto. Venderam-se ao Estado para construir a Casa da Moeda, o Instituto de Estatística. E a particulares, para os prédios de rendimento das ruas Eiffel, António José de Almeida, Filipa de Vilhena.
Aí estavam os lucros com que Duarte Pacheco pagou o Técnico.
Nesse tempo, não faltara nem o cimento nem o vidro. Os melhores materiais importados da Alemanha, chegando sem atrasos.”

“Se houvesse um percalço. Se, algum dia, uma obra não lhe ficasse perfeita.
– Acredita, se o Técnico não nos ficar perfeito…
– Vamos, Porfírio! Eu regresso ao Técnico ainda hoje, e…
Antes de três meses, estariam ambos a assentar a primeira pedra. Pedregulho de calcário rijo, cortado e aparelhado em Montelavar – Sintra. Canteiros da família de Pardal Monteiro que lá nascera, em Fevereiro de 1897.
– … e as obras vão-nos correr na perfeição. Acredita!
O encanto de Duarte.”

Duarte Pacheco foi Ministro das Obras Públicas de Salazar e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Projectou o Técnico e a Fonte Luminosa, entre outras obras de vulto na cidade de Lisboa e pelo país fora. Morreu na Cova do Lagarto, na estrada entre Montemor-o-Novo e Vendas Novas.

Esta obra de Filomena Marona Beja revela o lado menos público de Duarte Pacheco, numa escrita muito original. Ficamos a conhecer a sua família e amigos, namoros e amantes. Ficamos a saber como lidava com o trabalho e com os colaboradores, com os projectos e seus adjuvantes e oponentes. Foi decerto resultado de uma investigação longa e zelosa.

Fechando os olhos, mesmo lendo “por aí…” este livro, é difícil imaginarmos a nossa cidade antes de Duarte Pacheco (ADP). Como é possível que o Aeroporto, o Instituto Nacional de Estatística, o Instituto Superior Técnico, Monsanto, o Restelo, não estivessem ali antes? Quem é que consegue conceber esses locais como bucólicas quintas? Em certos sítios, ainda restam velhos muros de pedra, ou belas casas de quinta. Mas são poucos, e o progresso não se compadece com a nostalgia. Como diria Duarte, adiante.

Também existe um ADP e um DDP noutras cidades. Aquela que mais sofreu com o processo Duarte Pacheco terá sido Coimbra, com a demolição de uma boa parte da sua herança medieval, de quando Coimbra era a única universidade do reino, em pé de igualdade com Bolonha, Paris, Oxford e Salamanca. Duarte Pacheco foi, é certo, um visionário, mas a sua visão não alcançou estes aspectos.

Filomena mostra-nos um Duarte visionário, e um dos impacientes. Quando pensava nos projectos, queria-os prontos. Incansável, impunha o ritmo. Mostra-nos também um Duarte que se demarcou do regime (e do Outro), usando-o e aos poderes que ele lhe conferia, para pôr de pé os seus projectos.

Qualquer escola primária das antigas é um lugar adequado para ler A Cova do Lagarto. Algumas são hoje restaurantes, outras são retiros turísticos, e outras continuam a ser escolas primárias. Conheça várias. Em regiões diferentes. Repare como havia um modelo diferente para cada região.

 

 

 

Filomena Marona Beja

Foto de André Beja, no Flickr, https://www.flickr.com/photos/metrografismos/2556605326

Filomena Marona Beja nasceu em Lisboa a 9 de Junho de 1944. Trabalha em documentação técnico-científica e pesquisou a vida de Duarte Pacheco durance perto de vinte anos.

Para além de A Cova do Lagarto, que recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB, Filomena Beja publicou também os romances A Duração dos Crepúsculos (em 2006), A Sopa (em 2004), Betânia (em 2000) e As Cidadãs (em 1998).


 

A Alameda e outros lugares Pachequeanos

Foto retirada do site exames.org

Os vários lugares ligados a este livro têm em comum as linhas sólidas e verticais da arquitectura do Estado Novo.

A zona da Alameda foi escolhida por aí se situarem os projectos mais emblemáticos de Duarte Pacheco, o Técnico e a Fonte Luminosa. Mesmo ali, fica o Café Império, por baixo do que era anteriormente o Cinema Império. Lá dentro vemos que foi remodelado, mantendo a marca da época (projecto de Cassiano Branco) e o painel do ceramista Jorge Barradas.

Mas Lisboa está toda ela marcada por projectos de Duarte Pacheco. Do bairro do Restelo ao Aeroporto, do Cais do Sodré ao Parque de Monsanto, os Liceus Dona Filipa de Lencaste e Dom João de Castro, entre outros. O Museu de Arte Popular, recordação da Exposição do Mundo Português. A Estalagem da Boa Viagem, em Caxias, hoje em ruinas. Ali perto, o Estádio Nacional.

E no resto do país, há uns três modelos de escola primária, feitos de acordo com a construção da região. E planos urbanos, e estradas e pontes.

O Viaduto Duarte Pacheco tem, à entrada, uma estátua de Duarte Pacheco. Na Cova do Lagarto, há também um monumento que o homenageia. Vá também a Elvas, e a Loulé.

Margarida Branco
© Ler por aí… (2009)

 

 

 

 

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